Certa manhã de domingo, passeávamos no MASP Tomás e eu. Ele me falava sobre os casos da semana. A ex que encontrara no almoço, os clientes e suas exigências absurdas, aquela droga de filme que ainda estava ocupando uma sala de cinema e já estava na tv por assinatura...
Quase que gostava muito de Tomás. Ele tinha bom gosto, era calmo, inteligente, bem informado - sabia de cor os guias culturais e gastronômicos da cidade -, mas Tomás era muito chato.
Entre um caso e outro, comentava os quadros do acervo permanente: "Que luz!", "Olha esta técnica de pincel!", "Que expressão fascinante!". Quando chegamos ao A Canoa sobre o Epte, Tomás lembrou-se da raia da USP e começou a contar em detalhes um tal treino de corrida que lá fizera. Falou da sola do tênis à sua performance comparada aos demais no grupo - seriam cinco? Mais? Realmente não sei dizer porque o acompanhei só até o segundo.
Depois disso, a boca de Tomás começou a se mover mais devagar. Cada vez mais devagar. E eu sorri displicente. Voltei para o quadro e, ao fixá-lo, notei que a tinta escorria. Pude então ver o primeiro esboço em carvão, encoberto talvez por uma crítica, uma briga ou paixão repentina que fez com que Monet mudasse de ideia.
Sobre o Epte já não estavam as moças na canoa e nem a canoa. Apenas o rio e mais nada além da brisa que o ondulava e a luz do fim de tarde.
Muitos pássaros habitavam as árvores às margens e a esta hora deveriam estar fazendo algazarra, mas o que eu ouvia era o silêncio absoluto.
Um movimento brusco me fez desviar os olhos do quadro. Vejo Tomás um tanto alarmado correndo em direção à saída. Voltou-se umas duas vezes com o celular na mão e percebi que chamava meu nome. Acenei, mas como se não me visse, saiu correndo como se fosse tirar alguém da forca.
Será que tinha enlouquecido de vez? Bem, eu é que não ia sair feito doida atrás dele, ainda mais com o calorão lá fora. Foi então que, divertida com a ideia de deixar o Tomás em apuros, ouvi claramente o chamado do rio e notei que ele esperava uma resposta. "Já estou indo", eu disse tendo certeza de que estava cedendo sem resistência nenhuma a uma sedução que até então desconhecia. Me deixei levar de modo quase frívolo – mas quem em sã consciência resistiria ao fantástico? É lamentável pensar que isto fosse falha de caráter de uma alma fraca, eternamente pecadora e candidata ao inferno a menos que... Mas este lamento não tenho não e, portanto, não vou perder tempo com os limites da compreensão alheia. Isto é lá para professores!
Eu estava cansada das mesmas frases, dos mesmos encantos, pecados e perdões, problemas e soluções, mesmo as criativas. Estava cansada da originalidade pós-moderna, de saber das coisas, de ter respostas para os outros, de ser Lúcia de carne e osso e desejar e sonhar muito e pouco realizar além das tarefas profissionais e domésticas.
Sempre ouvi o quanto capaz eu era e de quanto surpreendia nas mais diversas situações, como enfrentava as dificuldades e as gentes que as causavam, fossem autoridades, chefes ou a síndica. Mas de uns tempos pra cá estes méritos não eram mais suficientes para me segurar contente de mim. Andava blasé, pensando em remédios, férias sem destino e alternativas exóticas como o jardim de areia e a magia negra. A ausência como solução só funciona se você estiver nela – não consegui chegar a este ponto... Não quis mais pensar nos porquês e muito menos em como. Não quis mais ser legal sem querer. O que importava era o presente que eu havia me dado, mesmo que alguém achasse que eu era egoísta e não o merecesse.
Tirei os sapatos para, com muito cuidado, pisar na relva fresca. Há quanto tempo não tinha esta sensação de frescor em tudo! Caminhei lentamente até o rio. Ali me despi sem pudores desnecessários e mergulhei com alegria de criança na piscina.
Na terça-feira, quando a polícia arrombou a porta do apartamento procurando pistas de um suposto sequestro, encontraram na cozinha louça suja de uns dez dias. Havia algo muito errado naquilo! Imagine se a Lúcia ia dormir com uma colherinha de café na pia!
Não dava para explicar. E o que ninguém nunca soube é que aquela louça era de mais de mês. Lúcia há tempos que comia como um beija-flor.
Durante anos foi mistério sem corpo. Mais um caso não resolvido pela polícia. Uma vítima de abdução para alguns, da antimatéria para outros. A história interminável do Tomás nos treinos de longa distância – sua amiga de infância! Ano após ano a homenageava indo ao museu na data de seu desaparecimento – ele foi o último a vê-la com vida e sentia-se culpado por não ter notado nada de estranho. Pouco ajudou nas investigações além de tornar-se o principal suspeito. Jamais se recuperaria deste trauma.
Depois que o Tomás morreu – um ataque cardíaco fulminante -, o pessoal do treino às vezes retomava a história com exageros aqui e ali. Ela tinha se suicidado porque era apaixonada por ele, que nunca notara, e lhe contava sobre namoradas e casos picantes com peripécias sexuais. Tinha se tornado anoréxica porque havia sofrido abusos na infância e nunca havia tratado o assunto. Não se exercitava. Sua vida social era um lixo orgânico. Tomás era o único com quem conversava. Era workaholic. Tinha começado a beber sozinha. A família não tomou conhecimento, pois já tinham problemas demais. Um caso típico de abandono múltiplo.
Mas nada daquilo era verdade e mesmo que fosse, não explicava nunca terem encontrado o corpo. Lúcia desejava desaparecer e começar outra vida, mas desta vez sem planejar como sempre fizera. Naquele domingo no MASP, diante do célebre A Canoa sobre o Epte, ela teve a audácia de sair de cena e recriá-la como desse, com os recursos e as oportunidades que encontrasse.
Ela tomou um táxi até o aeroporto, sacou o dinheiro que podia e com ele comprou uma passagem para o próximo vôo para onde dava. Lá tirou novos documentos, viveu com outra profissão, casou-se, divorciou-se, estudou Psicologia e voltou outra para São Paulo, mais velha, mais sábia e mais bonita, mas só para fazer compras.
Conto de Chris Ritchie
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