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quinta-feira, 26 de julho de 2012

A PROMETIDA



Quase no altar, Edu se desvencilhou da noiva contadora. As semanas que antecederam a decisão foram de angústia e sem-vergonhice – ele queria provar para si mesmo que não merecia moça tão boa, coisa que, é claro, não era verdade, mas, enfim, a mente faz o que é preciso para o sujeito sobreviver. Meio afogado por tantas lágrimas da ex-noiva, porém sem culpa, ele chegou moço solteiro a Arraial d’Ajuda em uma manhã de sol e promessa de recomeço. Era preciso sumir por uns tempos, até que todos estivessem recompostos do choque. – Não pode levar mais que uns meses... -, Edu ponderou com esperança antes de partir.

A vila era o paraíso de Alá prometido aos suicidas da causa! Muito mar verde-azul, muita praia para lavar a alma, brasileiras e estrangeiras, virgens ou nem tanto, caminhavam pelas ruas de terra em vestidos despretensiosos que mostravam mais do que escondiam, um deleite para os olhos e a imaginação dos homens. E Edu não era diferente: mesmo sem saber ainda, porque imaginava que queria dar um tempo com as mulheres, ele investiria seus esforços e o dinheiro da venda do apartamento do ex-casal para agradar as moças bonitas, as simpáticas e mais todas as que gostassem dele, mas não para casar.

Edu tinha uma reserva na pousada Canto Azul, um lugarzinho modesto com paredes pintadas de um azul caiado quase triste não fosse a exuberância das plantas decorativas. - Um microcosmo da Mata Atlântica! Dá até para ouvir os pássaros e saguis... Meu lar nos próximos três meses -, pensou satirizando a própria escolha.

Clara, a dona do Canto Azul, era uma mulher de meia-idade morena e voluptuosa, falante na medida para ser simpática, mas sem conversa besta. – Olha, seu Eduardo, como o senhor deve ter visto no site, esse é o quarto para estadia longa - disse abrindo a porta do último quarto do corredor. - Troco os lençóis e as toalhas a cada semana, para preservar o meio-ambiente. Se precisar trocar antes, tem R$ 15 de taxa de preservação – anunciou como se fizesse parte do ativismo ambientalista local e prosseguiu sem esperar comentário ou protesto. – As regras e horários estão aqui atrás da porta.

Clara deu a Edu o pior quarto da pousada na esperança de que ele, apesar de querer pagar adiantado, decidisse ir embora antes do prazo. Ela tinha desconfiança dos hóspedes que vinham com essa ideia de remediar a vida na vila. Na sua experiência, as coisas sempre acabavam em alguma confusão, com casamentos desfeitos, briga de facão e o diabo.

Edu realmente achou o quarto pobrinho e apertado, mas dava para o gasto.  Tinha TV, a cama era boa, o banheiro no corredor limpo. – Com um marzão desses lá fora, vou ficar pouco aqui dentro. Se o chuveiro for quente (ele detestava banho frio) tá valendo! - avaliou consigo.

Os primeiros dias foram de reconhecimento: o melhor canto da praia, a melhor moqueca, o melhor bar, a melhor prática de capoeira, os músicos, os boêmios úteis à arte popular. Em três semanas, Edu se entrosara com os personagens locais e já fazia parte da vida na vila. Alguns amigos foram visitá-lo, levando as notícias que ele recusava receber da família e da ex-noiva, que estava em depressão porque não conseguia dar a volta por cima, esquecer o canalha filho da puta imbecil que a deixou quase no altar. A conversa para continuar tinha que ser sobre o que vamos fazer hoje.

E hoje sempre tinha café da manhã com banana da terra, tapioca, mergulho, sair de barco com Tonhão, o melhor pescador, almoçar uma moqueca ou peixe na brasa, cerveja gelada, pinga para fechar, jogar bola, até anoitecer, conversa na praia. Às vezes tinha convite para jantar, dançar, cantar, jogar, transar. Dormir junto, não – todas sabiam que ele não aceitava.

No dia em que a cota do plano de fuga acabou, Edu recebeu proposta de Clara para ficar mais uma semana sem custo, refeições inclusas. - Você pode fazer um site mais bonito pra pousada e me trazer um peixe ou dois - ela propôs sem nove horas. – Vai se despedindo do povo aos poucos...

Era irrecusável. O que o esperava em São Paulo era a casa da mãe, dias de visitas, críticas, dinâmicas, entrevistas e, com alguma sorte, um emprego ao fim de tudo. Edu não tinha certeza de que fosse isso que desejasse de fato, mas, como não havia outra coisa além dos hojes na vila e o sonho de ter um barco, ele voltaria a São Paulo para juntar dinheiro e montar um negócio no litoral norte.

Antes de partir, o paulista ganhou três festas de despedida e presentes dos amigos que fez nos intensos três meses e meio em Arraial. De Clara recebeu a gravaçãozinha dos pássaros da Mata, para lembrar do Canto Azul, senão dela própria. Ganhou do Tonhão o anzol da primeira cavala que pescou, um peixão de quase 30 quilos que garantiu o almoço de sábado e domingo de toda família do Tonhão, sendo ele o convidado de honra! Laura lhe deu o beijo que ele esperou desde o primeiro dia em que a conheceu na padaria, assando e vendendo pão. – Nunca me passou pela cabeça ideia de mulher padeira, ainda mais gostosa assim. – Passou a comer mais pão, mas sem manteiga. E assim, foi juntando presentes e lembranças até encher mais uma mala e partiu com todos os nomes e endereços na cabeça, alguns telefones também, que esqueceria quando fosse hora.

Chegou ao aeroporto de Porto Seguro duas horas antes do voo. Edu já estava morrendo de fome, uma coisa que havia tempo não sentia – como tinha ficado mal acostumado às comidinhas na mão! E se tinha alguma coisa que deixava Edu menos simpático era fome. Era algo assim como a transformação do paciente e gentil Dr. David Banner no incrível Hulk, mas em câmara mais lenta, de um modo que a olho nu não se notava. E, para evitar o mesmo despertar desconcertante do cientista despido e confuso, Edu, como o Dr. Banner, fazia de tudo para não se transformar. Foi logo ao primeiro quiosque que encontrou e pediu ao atendente, - Amigo, me vê uma coxinha, por favor.

O rapaz, que conversava com duas moças debruçado sobre o balcão, respondeu sem pressa e sem olhar para o freguês aflito, - Só um minutinho. - O minutinho passou com mais três e nada. Edu pediu de novo, - Ô, amigo, a minha coxinha... – De novo o moço respondeu arrastado, - Só um minutinho -, e gargalhou com as moças. Os olhos castanhos de Edu já estavam verdes e ele insistiu para o bem de todos, - Amigo, faz mais de cinco minutos que estou esperando a coxinha... - O rapaz voltou-se irritado, porém moroso, - Oxe, esse povo de São Paulo é tudo estressado - e riu com um desdém que Edu deixou passar para não piorar a situação. – Diga, moço, que coxinha o senhor quer? - Edu animou-se e disparou tão gentil quanto podia com as pontas das unhas já esverdeadas indicando a maior coxinha do refratário, - Pode ser esta daqui!

- Essa pode não, moço. Já tá prometida a outro -, responde falando mole.
- Tá. Pode ser essa daqui então -, diz Edu com o último fio de paciência na voz.
- Oxe, essa também tá prometida! - ele diz lânguido e pisca para as moças.

Quase espumando verde, Edu dá o ultimato:

- Se esta outra coxinha estiver prometida, seu palhaço, eu vou te encher de porrada! –avisa ao apontar a terceira e derradeira coxinha.

- Também es... – e a frase se interrompeu com o primeiro soco, que acertou o ar porque o rapaz tinha ficado esperto de repente, pulando para trás como um gato. As moças gritam. Edu se atira por cima do balcão derrubando os potes de pimenta, ketchup e mostarda. Avança para o rapaz com os punhos brancos (estariam verdes não fosse a força com que os cerrava) e cego de raiva resvala mais um golpe no palhaço imberbe. O quiosque torna-se um ringue e atrai os passantes. Pode-se ouvir alguém comentar: - Sabia que esse folgado ia acabar levando uma! - Os combatentes se encaram com fúria. Edu, que não é de briga apesar da fome transmutá-lo, acerta o atendente uma vez.  Ele grita por socorro, - Seu Ramos, seu Ramos, acuda aqui!!! É ladrão assassino!! – exagera o rapaz já com o olho inchando roxo. Por sorte, um freguês que comia empadas no balcão e testemunhara a afronta desde o início, avisa Edu: - SAI FORA que é a polícia, cara! SAI FORA AGORA!!!

A polícia chega e o tumulto é desfeito, mas não sem antes Edu enfiar duas coxinhas no bolso do casaco, saltar para fora do quiosque e misturar-se à multidão atarantada. Com a adrenalina berrando no sangue, Edu entra na livraria do aeroporto e abocanha a primeira prometida, sentindo o prazer da vitória. Com coragem, admitiu para si mesmo que estava mudado. Para melhor.

terça-feira, 24 de julho de 2012

DÍVIDA



DÍVIDA
Jean Paul desligou o telefone com um gesto lento e pesado, prenúncio de uma fase sombria em que lhe faltariam até os palavrões tão característicos de sua expressão efusiva e sincera, muitas vezes para melhorar a verdade, como acontece com os românticos incuráveis.  

Recém-divorciado, devendo três meses de aluguel, estourado o limite do cheque especial, sem cara para pedir mais dinheiro emprestado aos amigos ou à família e com caráter demais para esperar que o proprietário entrasse com ação de despejo, a partir daquele momento Jean Paul podia se considerar um autêntico sem-teto. 

Vasculhando a lista de alternativas que incluíam o viaduto da Praça XV ou da Penha, Jean Paul decidiu pedir emprestada ao pai a casinha no ermo sertão da estrada de Teresópolis.  Por alguns meses teria de viver longe dos palcos e da esbórnia carioca que tanto o inspirava. Com certeza a experiência o tornaria mais saudável, purificando corpo e espírito tão expostos aos excessos da diversão extrema.  

E foi com este pensamento do otimismo ingênuo que sempre lhe abrira tantas portas que Jean Paul também decidiu recorrer às forças ocultas, outras velhas conhecidas de horas de trabalho voluntário no Centro das Almas Aflitas, curando padecimentos físicos e encostos espirituais com diplomacia, fé e abnegação. Depois, como recompensa por seu talento criativo e dedicação, vieram a fama e o esquecimento de muitas regras do divino. 

Jean Paul acreditava, no entanto, que a regra primordial, a do perdão, não lhe faltaria agora. O filho pródigo merece ser perdoado porque com ele o equilíbrio natural-sobrenatural é restabelecido e expandido para todas as dimensões em que habitam as almas, com ele se fortalece o reino, o regente e os regidos. A presente situação era prova de que este era o seu papel no plano maior. 

Primeiro ligou para o pai, que também entendeu a mudança como oportunidade de reflexão para o filho. Depois acertou com um amigo para o domingo à noite o transporte dos poucos objetos que não havia vendido e, por fim, visitou o Centro.  

Como o pai, os ex-colegas se mostraram receptivos e prontos a ajudar. - Será que a coisa está mais feia do que imagino? - pensou intrigado e assustado estaria se não tivesse fé. Mas, fato foi que o espírito que lhe falou pela boca de Pai Oxóssi mandou que ele subisse o morro naquela mesma noite para despachar com aquele que não era nem homem e nem mulher e, felizmente, deu-lhe um endereço, uma lanterna e dinheiro para a condução. - Vai sem medo que ele tem a solução pra tua hora de aflição, meu filho -, sussurrou o médium. 

Jean Paul agradeceu a instrução e foi confiante ao encontro do desconhecido. O taxista o deixou no pé do morro sem iluminação. - Só dá pra ir até aqui, amigo. Daqui pra cima é só picada. Tu tem lanterna? Bom, vai precisar. É um breu só nessa mata. Valeu o troco. Boa sorte! –, o homem se despediu aliviado por partir. 

Após 40 minutos de subida, Jean Paul bateu palmas à porta de treliça de um barraco. Mesmo fechada, ela só filtrava a luz que emanava do interior do cubículo, iluminado os últimos minutos da caminhada, quando as pilhas da lanterna já haviam se acabado.

- Vai entrando, a casa é sua! – convidou aquele... aquela pessoa que já o esperava. – Num precisa falar, não, mas tem que olhar nos olhos e me dá a mão.  

Jean Paul queria se explicar, mas a Pessoa levou o dedo aos lábios pedindo silêncio e sacudiu a cabeça segurando-lhe as duas mãos na sua, enquanto o benzia com a outra. Aquilo durou três minutos, duas horas? Não dava para saber.  - Agora vai pra casa dormir que os mensageiros já estão levando a sua resposta – ordenou a Pessoa. 

Às nove horas do sábado, o telefone tocou insistente. Uma voz feminina muito animada tagarelava zoando a cabeça de Jean Paul. - É você que está procurando alguém para dividir o apê? Então, posso ir agora?  É que estou com pressa para resolver minha mudança. Tenho que viajar amanhã. Posso ir, então? Falou! Na verdade, já estou aqui embaixo. subindo em dez minutos porque sei que te acordei.  

- Que demais o teu espaço, cara! Adorei! Vou ficar!

- Acho que você não entendeu. Eu já entreguei o apartamento. Estou saindo amanhã. Você tem que falar com o proprietário.

- Ah, não faz isso não! Não tenho como pagar sozinha, ver contrato, essa merda toda... e a localização daqui é perfeita pra mim! Olha só, posso pagar três meses adiantados e se você não fizer questão da suíte, aumento em 30% o que você tá pedindo. Topa? 

Jean Paul topou. 

- Agora vamos comemorar! Vi uma padaria aqui perto com um café da manhã caprichado. Vamos lá?
- Querida, você não está entendendo que eu não tenho mesmo dinheiro nenhum?
- Ah, deixa disso, Jean! Posso te chamar de Jean, né? Você é meu convidado! Afinal, te tirei da cama.
- Não vou poder retribuir tão cedo.
- Não precisa. Vamos lá?

Mal haviam entrado na padaria, um famoso produtor musical que há séculos ficara de dar resposta sobre um contrato com Jean Paul o saúda calorosamente, monopolizando a atenção de todos. - Meu querido, que maravilha te encontrar aqui hoje!! Quero retomar aquele contrato do álbum com 12 faixas. pronto pra gravar? Segunda-feira, então, passa na gravadora pra assinar. Fechado? Agora, dá licença que vou levar as crianças à praia. Bon appetit, Jean Paul! Tchau, gata.

A resposta veio tão rápido que Jean Paul só relacionou os acontecimentos depois de comer. - Puta que o pariu! A Pessoa era mesmo do caralho! - , a abundância tinha voltado à boca e ao bolso de Jean Paul. E a primeira coisa a fazer era pagar a divina eficiência. Voltou à cabana, mas não encontrou ninguém. Foi ao Centro, mas lá não constava nenhuma dívida. Relaxou.

 Os anos se sucederam e o sucesso era parte integrante da vida de Jean Paul. Cinco anos após o salvamento, Jean Paul havia comprado um apartamento na Vieira Souto, no Rio de Janeiro, e outro na Alameda Lorena, em São Paulo. Circulava incansável entre os polos culturais do Brasil, compunha semanalmente, fazia shows, era convidado especial nos programas de auditório da TV e, nas baladas, VIP.

Em uma festa de lançamento da coleção primavera-verão da Preta-Porter, ficou amigo de uns franceses muito curiosos sobre a umbanda. Com o maior prazer, Jean Paul se prontificou a levá-los no dia seguinte.

A alegria da comunidade do Centro das Almas Aflitas em vê-lo era só comparável ao agradecimento pela doação mensal que Jean Paul fazia às obras de assistência social do Centro. Ele posava orgulhoso e feliz com as crianças para as fotos dos franceses.

Na hora dos trabalhos, sentaram-se em grupo e Jean Paul explicava aos estrangeiros as falas dos rituais quando, para sua absoluta surpresa, ele foi assinalado pelo médium.

- Ocê, gringo safado, mi devendo tem cinco ano de terra!
- Como assim, estou devendo?! - perguntou absolutamente surpreso.
- Num foi ocê que subiu o morro pra fala cum aqueli qui num é homi nem muié?
- Foi. E se estou devendo, é só falar que eu pago. O que estou devendo?
- Tudo qui a boca comi!
- Tudo que a boca come?! – pensou um instante e concluiu, - É um banquete pro santo!

E Jean Paul passou os três dias seguintes providenciando cestas de frutas, verduras, carnes e doces que acabariam no bico dos pássaros e no bucho dos cães e gatos que pulassem os muros do Centro, todos enviados em missão que durou sete dias e sete noites.

Na sétima noite, Jean Paul sonhou que subia o morro acompanhado pelos animais, que lhe lambiam as mãos, os passarinhos brincando com seu cabelo, bem mais comprido no sonho. Chegando ao cume, no lugar onde estava o barraco, havia uma estátua de figura humana gargalhando. Jean Paul chegou bem perto procurando uma placa que a identificasse, mas só ouviu uma vozinha vindo de dentro do bronze, - Fio, danado! Nunca mais vô tê fomi!

sábado, 7 de julho de 2012

SORTE MINHA


Após um fim de semana agitado, com aniversário e vitória do time, muita gente entrando e saindo, jogando-lhe restos de comida e passando-lhe a mão na cabeça ao se esgueirar pelo corredor apertado, escuro e húmido, passagem dos cubículos no pátio do casarão do século XIX transformado em cortiço pelo proprietário agiota, a cadelinha vira-lata de três meses estranhou o silêncio da manhã e pôs se a ganir às cinco horas.

 Às 5:01, um homem já urrava palavrões e uma mulher berrava ordens de silêncio à cadelinha, mas estas só fizeram aumentar seus protestos. Em meia hora, todos no cortiço estavam acordados discutindo o inconveniente sob os ganidos estridentes do animal e o choro das oito crianças. Adultos mais exaltados queriam dar-lhe um fim.

- Eu falei que ia dar merda pegar esse cachorro – disse o homem dos palavrões.

- Mas, foi tu que gastou todo o dinheiro do presente de aniversário do Maurival! Aí, foi essa a opção que sobrou! – resmungou a mulher, mãe do aniversariante.

- Já vou avisando que se esse bicho da porra não calar a boca vamos ter que dar fim – avisou o morador mais encrenqueiro.

– Tu não manda nada aqui, seu filho da puta! - A mãe estava furiosa.

E quanto mais a discussão caia de nível, mais gritavam a cadelinha e as crianças. O confronto estava a poucos centímetros de se tornar físico quando alguém pisou no filhote. Os ganidos chegaram a um milhão de decibéis e, num misto de terror absoluto e heroísmo inconsciente, Maurival, o suposto dono, temendo pela vida do bichinho, pegou-a no colo e saiu para a rua deixando os berros dos adultos e o choro dos irmãos para trás.

Correu o mais rápido que pôde, gastando todo folego que tinha. Quando parou exausto, não tinha certeza de onde estava e a cachorrinha se debatia tentando escapar para o chão. Amedrontado e sem forças, Maurival não teve como segurá-la mais e ela sumiu em questão de segundos.

O menino achou que fosse chorar, mas, na verdade, ainda não tinha se apegado ao animal, tanto que nem nome ela tinha. E, sendo assim, não pôde chamá-la de volta. Pensou também que se ele não tivesse mais aquele presente de aniversário, poderia ganhar o ‘Campo de Batalha’ que havia pedido. Não se sentiu culpado porque tinha nove anos de experiência em um ambiente totalmente insensível a qualquer causa ou sentimento nobre, já tinha levado muita bordoada e vivido com a falta de itens básicos, como carinho e educação. Além disso, sabia que ela tinha chance de encontrar outro dono.

Para voltar para casa, Maurival foi perguntando aos passantes se estava perto da Lanchonete Halua, muito popular e vizinha ao cortiço. Chegou em casa por volta das 7 horas, levou uns tapas e ficou de castigo. A semana começou bem mal para ele, mas pelo menos os adultos haviam parado de brigar e os irmãos, de chorar. Em segredo combinaram de procurar pela cadelinha depois que os pais saíssem para trabalhar.

Sinal vermelho no cruzamento, aguardo na área ensolarada da faixa além dos carros, pensando em como tenho sorte por poder andar de bicicleta em uma segunda-feira tão linda assim.

Distraída, admirando o azul intenso de inverno e poluição no céu, sinto um leve desequilíbrio na bicicleta. Olho para os lados e não vejo ninguém, mas o peso estranho permanece. Olho para baixo e ali está um filhote pretinho apoiando-se no quadro, esperando atenção.

- Oi, neném! Você tá passeando sozinho? – pergunto, fazendo festa para aquela carinha tão simpática.

Em resposta, ele abana o rabo e sai em disparada para o cruzamento. 

- Volta aqui, ...! Volta, ...! – chamo inutilmente, sem saber seu nome. E no segundo em que penso em largar a bicicleta para trazê-lo de volta à calçada e evitar que seja atropelado, ele vai em direção ao carro!  

Apertei os olhos até doerem, recusando-me a testemunhar a cena trágica que acompanharia a batida surda que se seguiu. Mesmo assim, o sangue se esvaindo do corpinho esmagado era o que eu via no asfalto até que os ganidos em movimento me arrancaram deste imaginar horroroso. 

Então, vi o filhote correndo de volta para a calçada e deitando-se todo enroladinho contra o muro, já sob o olhar de um passante que lhe acalmava. 

Uma mulher chegou aos prantos com seu carrinho de compras. – Eu vinha vindo desde lá e vi o coitadinho zanzando sozinho. Ele está perdido! Ah, meu Deus, ele vai morrer?! – perguntou-me em desespero. 

- Parece que ele está bem – afirmou o homem que o observava. 

- Há um veterinário logo ali. Vamos levá-lo para ter certeza – eu disse com uma objetividade absurda diante de minha comoção. 

- Deixa que eu pago as despesas! – a mulher estava decidida a salvar o bichinho, - mas não posso pegá-lo por causa deste maldito carrinho! Ah, meu deus, ele vai morrer... – dizia entre soluços. 

- Não vai, não! Leva minha bike que eu pego ele – decidi, entregando minha bicicleta para o homem e carregando o cachorro sem receio de ser mordida.  

Caminhamos como uma equipe de resgate até o veterinário, que o examinou podendo  constatar que era uma fêmea de aproximadamente três meses e estava bem, mas deveria ficar em observação até as 15 horas. 

Aliviada, a mulher chorou ainda mais e pagou a consulta com prazer enquanto eu considerava ficar com a cadelinha que chamei de Sorte Minha.

terça-feira, 3 de julho de 2012

OS CONDENADOS


Cida desceu a rua esburacada correndo, apressada para pedir à irmã que lhe emprestasse o dinheiro da condução. Corria o mais rápido possível porque estava bem atrasada, mas também porque queria chegar sem fôlego para ter a desculpa de só pedir o dinheiro – quanto menos falasse, menos ouviria – e sairia correndo novamente e pegaria o primeiro ônibus para ficar longe das vistas de Auxi, a irmã auxiliadora, sempre tão pontual, organizada, previsível e inflexível como dominó.

Cida sabia que Auxi a repreenderia 1. por não ter o dinheiro da condução, que a patroa havia adiantado; 2. por tê-lo gastado com bobagem (os esmaltes cintilantes); 3. por estar atrasada; e  4. por domingo ter dançado até tarde no forró da Rua da Abolição (como é que ela sabia?!).
Havia uma certa provocação à irmã em tudo que Cida fazia. Pelo menos, era o que diziam as pessoas do bairro, era o que a família dizia e essa ideia de tão repetida se tornou uma verdade sobre ela, mas não para ela, que a refutava categoricamente com um argumento corajoso:
- Quem vê as coisa assim tem veneno no coração e na língua! Eu gosto de me divertir e me divirto dançando. Auxi gosta de ir no culto. O mundo, o bairro e a família têm lugar pras duas!
O marido de Auxi às vezes achava que Cida abusava da boa vontade da irmã. Porém, na verdade, Auxi não lhe negava nada porque ela era uma missão evangélica e a certeza de fazê-la mais crente em Jesus Cristo, mais casta em seu guarda-roupa e mais pura em suas ações era tão absoluta que chegava a sonhar com este testemunho diante dos irmãos no templo.
Cida tomava caipirinha de canudinho, seduzia sem querer homens noivos e casados, meninos adolescentes e era a maior fonte de inveja das mulheres da vila.
- Ela tem o diabo no corpo! Precisa de exorcismo e batismo! -, diziam as mais exaltadas.
Auxi acreditava na existência do diabo e também que ele era o semeador da inveja e outros pecados. No entanto, pelo tanto que orava pela irmã, sabia que ele estava muito longe de Cida. Ela era cheia de energia, gostava de conversar e de dançar, mas também dava duro nas faxinas em casa de família e escritórios. Era tanta sua eficiência que nunca faltavam indicações de trabalho e Cida passava os contatos para todas as mulheres do bairro que estivessem procurando serviço, mesmo para aquelas que falavam mal dela.
Auxi sofria mais que Cida com a maledicência e achava que a única solução para a irmã seria mudar de bairro, ou até de cidade. Cida não estava nem aí: ela tinha sorte, sucesso e estava de bem com a vida. Auxi também a via assim e no fundo não desejava que Deus mudasse nada nela – talvez por isso as orações não fizessem efeito para mudança, apenas para a proteção...
 Já no ônibus, Cida conversava com uma colega sobre o trânsito e como chegariam cansadas no serviço depois de duas horas em pé aos solavancos.
- Oh, minha linda, senta aqui que eu já vou descer e quero te dar o meu lugar. – Chamou um moço sentado no fundo, que desde que Cida entrara não tinha tirado os olhos dela.
A colega deu uma risadinha e um empurrãozinho, cochichando:
- Vai lá, danada, que ele gostou de ti!
- Quer saber, vou mesmo porque minhas perna tão que tão!
- Vem, morena, vem sentar aqui! -, ele gritou acenando.
Cida espremeu-se pelo corredor abarrotado e chegando diante do moço tão gentil teve pena. Ele usava bota corretiva para perna mais curta. Ele notou seu embaraço e, experiente na situação, logo foi dizendo:
- Prazer, sou o Capeta das pelada da Vila Maria. Acredita?
- Acho que não, moço -, respondeu sem graça porque não mentia muito bem. Ela já conhecia a fama do moço que era o capeta com a bola, mas nunca o tinha visto.
- Então, vem me ver jogar no domingo que vem às 11 horas. Você vai ser minha convidada de honra na arquibancada da diretoria.
- E pelada de vila lá tem isso? -, perguntou com fingido desdém.
- Vai lá ver, linda.
- Meu nome é Cida.
- Vai lá ver, linda Cida.
Cida sorriu quase encabulada, sem responder. Antes de descer, o moço olhou-a intensamente, repetindo:
- Vai lá me ver: Jair, camisa 10, não dá pra errar.
Cida sustentou a intensidade do olhar e surpreendeu-se com a agilidade de Jair para descer do ônibus. Notou também que ele ficou olhando até outro ônibus entrar no corredor e bloquear sua visão.
A semana passou e Cida continuava na dúvida sobre aceitar o convite de Jair. Estava curiosa para vê-lo jogar com aquela perna mais curta, mas não queria confusão. “Vai que ele é casado... Deus me livre!” Mesmo sabendo a resposta, perguntou a opinião de Auxi, que se apavorou:

- Tu é doida de pensar em ver Capeta jogar! Vem pro culto comigo que a curiosidade passa.

Cida foi, mesmo preferindo missa. Mas, a curiosidade não passou e ela foi ao jogo com a colega do ônibus como quem não quer nada. Chegaram atrasadas por causa do pastor exaltado que não c parava de falar, porém discretíssima, sem salto nem maquiagem, e sentaram-se nos primeiros dois lugares livres que encontraram na pequena arquibancada improvisada com cadeiras dobráveis de bar. Do lado oposto erguia-se a área VIP: poltronas plásticas sobre um tablado com geladeiras de isopor contendo cerveja, refrigerante e até suco natural!

O jogo acabara de começar e Jair já a havia notado, mas disfarçou sua satisfação e nem lhe acenou, fingindo-se muito concentrado. “Este é o melhor jogo da minha vida!”, pensou.

E foi. Jair marcou dois gols, que deram a vitória ao Quadra Dez. Mais tarde, no churrasco de comemoração, ele foi aclamado o melhor jogador da história do time, com direito a brinde e desfile no ombro dos companheiros embriagados.

Envaidecido com as homenagens e, principalmente, com a presença de Cida, Jair atribuiu a inspiração dos gols a ela e os dois passaram a tarde em flerte adolescente. A colega não ficou na mão, recebendo atenções do goleiro reserva, que também era o mestre churrasqueiro.
À noitinha, Jair ofereceu-se para acompanhar Cida em casa.
- Tu joga mesmo bem, seu Capeta.
- Foi tu que me fez jogar assim – nunca tinha jogado tão bem! Acho que tu vai ter que vim a todos os jogo...
- Imagina só! O talento é teu homem, tu podia ser profissional se... -, e parou envergonhada com a frase inconveniente, - Desculpa. Não quis ofender.
- Não, não se desculpa, não, linda. Não me ofendeu. Nasci assim. É assim que ando, corro, jogo melhor que os outro com perna do mesmo tamanho e tá bom. Faz tempo que me acostumei com o jeito do olhar dos outro e as coisa boba que algumas pessoa dizem.
“Eu também!”, Cida pensou, “só que por outros motivo...”
- Imagino que é como ser famoso, só que sem as glória da fama, - Jair continuou, - mas eu tenho do meu lado a maior glória de todas e aqui caminhando com ela – finalizou olhando-a com malícia.

Cida parou de andar e eles se beijaram com paixão. Mesmo antes do abraço ousado, ela já sentiu um calor intenso envolvendo seu corpo ao mesmo tempo em que um frio na barriga a fazia se arrepiar toda. Jair tinha um gosto bom de doce de festa chique, aqueles com caramelo vidrado. “Isto sim é um beijo de verdade!”, pensou feliz da vida.

Depois de alguns passeios e jogos, beijos e amassos, estava claro para ambos que deveriam ficar juntos. Casaram-se em cerimônia civil e religiosa apenas para as famílias, conforme a vontade de Cida para agradar Auxi. Mas, após tanta discrição, os noivos receberam a vila toda na maior festança de que já se teve notícia por lá. Eles queriam e fizeram uma festa do tamanho de sua felicidade.

No dia seguinte, viajariam em lua de mel para Santos. Jair alugou um sedan e as amigas o enfeitaram com flores, latinhas, frases românticas e camisinhas comestíveis no porta-luvas.

Antes de pegarem a estrada, Jair estacionou próximo a uma casinha muito velha e modesta, com uma muretinha esmorecida e jardim abandonado. Jair tirou uma caixinha do bolso do paletó e Cida, que já havia ganhado anel de noivado e casamento, não fazia ideia do que poderia ser agora. Jair, então, anunciou solene:

- Este aqui é o meu ex-voto mais importante -, disse entregando a caixa para Cida.

Ela abriu com delicadeza e ao ver o que era sussurrou lentamente:

- Sapatinhos de bebê... Não entendi.

- Vem aqui fora comigo um instante -, saiu do carro e foi abrir a porta para ela, mas como não estava acostumada com tanta gentileza, já tinha saído quando ele chegou do outro lado. Deram-se as mãos e caminharam até o casebre.  Jair colocou os sapatinhos na mureta e explicou: 

- É uma velha história que termina com você, minha linda. Quando eu nasci, o médico disse pra minha mãe que eu provavelmente nunca ia andar, que ia ficar deformado conforme crescesse, que não tinha tratamento pro meu caso.

- Que horror! Isso não se diz pra mãe nenhuma! – exclamou Cida comovida com a história do marido.

- Pois é, a pobrezinha voltou pra casa - essa casinha aí - e chorou dois dia sem parar. No terceiro, ela decidiu que eu ia andar até de bicicleta – e andei mesmo - que ia jogar bola e ia fazer bonito, ia namorar e me casar com uma moça linda e boa de tudo – você! – e ia ter muita coragem e ser feliz com a graça de São Cosme e São Damião.
- E ela conseguiu, meu amor! Você é o homem mais corajoso, mais homem que eu já conheci. Tua mãe devia ser muito forte, dos santo forte.
- Era mesmo. Ela fez promessa pros santinho de dar doce para as criança e bolo de chocolate no dia deles, de fazer sapatinho para todos os bebê que conhecesse todos os ano e também pras criança órfã– ela era muito boa no tricô, fazia até três sapatinho por noite, depois de trabalhar o dia todo na cozinha industrial. Minha mãe cumpriu a promessa e, antes de morrer, pediu para mim trazer aqui com minha mulher esse último sapatinho que ela fez, que os santinho ia abençoar para os nosso filho - , Jair terminou emocionado, deixando a lembrança da dedicação da mãe e dos bolos de chocolate invadirem sua intimidade de recém-casado.
- Você já tá pensando em filhos, é? – Cida perguntou brincando para tirá-lo do devaneio nostálgico.
A ideia do sexo foi a primeiro que lhe veio à cabeça e o fez rir.

- Ainda, não, minha linda. A gente tem muito que passear! – e puxando-a pela cintura disse em um sussurro de galã latino - E começa agora!