Cida desceu a rua esburacada correndo, apressada para pedir à irmã que lhe emprestasse o dinheiro da condução. Corria o mais rápido possível porque estava bem atrasada, mas também porque queria chegar sem fôlego para ter a desculpa de só pedir o dinheiro – quanto menos falasse, menos ouviria – e sairia correndo novamente e pegaria o primeiro ônibus para ficar longe das vistas de Auxi, a irmã auxiliadora, sempre tão pontual, organizada, previsível e inflexível como dominó.
Cida sabia que Auxi a
repreenderia 1. por não ter o dinheiro da condução, que a patroa havia
adiantado; 2. por tê-lo gastado com bobagem (os esmaltes cintilantes); 3. por
estar atrasada; e 4. por domingo ter
dançado até tarde no forró da Rua da Abolição (como é que ela sabia?!).
Havia uma certa provocação à irmã
em tudo que Cida fazia. Pelo menos, era o que diziam as pessoas do bairro, era
o que a família dizia e essa ideia de tão repetida se tornou uma verdade sobre
ela, mas não para ela, que a refutava categoricamente com um argumento
corajoso:
- Quem vê as coisa assim tem veneno no coração e na língua! Eu gosto de me
divertir e me divirto dançando. Auxi gosta de ir no culto. O mundo, o bairro e
a família têm lugar pras duas!
O marido de Auxi às vezes achava
que Cida abusava da boa vontade da irmã. Porém, na verdade, Auxi não lhe negava
nada porque ela era uma missão evangélica e a certeza de fazê-la mais crente em
Jesus Cristo, mais casta em seu guarda-roupa e mais pura em suas ações era tão
absoluta que chegava a sonhar com este testemunho diante dos irmãos no templo.
Cida tomava caipirinha de
canudinho, seduzia sem querer homens noivos e casados, meninos adolescentes e
era a maior fonte de inveja das mulheres da vila.
- Ela tem o diabo no corpo!
Precisa de exorcismo e batismo! -, diziam as mais exaltadas.
Auxi acreditava na existência do
diabo e também que ele era o semeador da inveja e outros pecados. No entanto,
pelo tanto que orava pela irmã, sabia que ele estava muito longe de Cida. Ela
era cheia de energia, gostava de conversar e de dançar, mas também dava duro
nas faxinas em casa de família e escritórios. Era tanta sua eficiência que
nunca faltavam indicações de trabalho e Cida passava os contatos para todas as
mulheres do bairro que estivessem procurando serviço, mesmo para aquelas que
falavam mal dela.
Auxi sofria mais que Cida com a
maledicência e achava que a única solução para a irmã seria mudar de bairro, ou
até de cidade. Cida não estava nem aí: ela tinha sorte, sucesso e estava de bem
com a vida. Auxi também a via assim e no fundo não desejava que Deus
mudasse nada nela – talvez por isso as orações não fizessem efeito para mudança, apenas para a proteção...
Já no ônibus, Cida conversava com uma colega
sobre o trânsito e como chegariam cansadas no serviço depois de duas horas em
pé aos solavancos.
- Oh, minha linda, senta aqui que
eu já vou descer e quero te dar o meu lugar. – Chamou um moço sentado no fundo,
que desde que Cida entrara não tinha tirado os olhos dela.
A colega deu uma risadinha e um
empurrãozinho, cochichando:
- Vai lá, danada, que ele gostou
de ti!
- Quer saber, vou mesmo porque
minhas perna tão que tão!
- Vem, morena, vem sentar aqui!
-, ele gritou acenando.
Cida espremeu-se pelo corredor
abarrotado e chegando diante do moço tão gentil teve pena. Ele usava bota corretiva
para perna mais curta. Ele notou seu embaraço e, experiente na situação, logo foi
dizendo:
- Prazer, sou o Capeta das pelada da Vila Maria. Acredita?
- Acho que não, moço -, respondeu
sem graça porque não mentia muito bem. Ela já conhecia a fama do moço que era o
capeta com a bola, mas nunca o tinha visto.
- Então, vem me ver jogar no
domingo que vem às 11 horas. Você vai ser minha convidada de honra na arquibancada
da diretoria.
- E pelada de vila lá tem isso?
-, perguntou com fingido desdém.
- Vai lá ver, linda.
- Meu nome é Cida.
- Vai lá ver, linda Cida.
Cida sorriu quase encabulada, sem
responder. Antes de descer, o moço olhou-a intensamente, repetindo:
- Vai lá me ver: Jair, camisa 10,
não dá pra errar.
Cida sustentou a intensidade do
olhar e surpreendeu-se com a agilidade de Jair para descer do ônibus. Notou
também que ele ficou olhando até outro ônibus entrar no corredor e bloquear sua
visão.
A semana passou e Cida continuava
na dúvida sobre aceitar o convite de Jair. Estava curiosa para vê-lo jogar com
aquela perna mais curta, mas não queria confusão. “Vai que ele é casado... Deus
me livre!” Mesmo sabendo a resposta,
perguntou a opinião de Auxi, que se apavorou:- Tu é doida de pensar em ver Capeta jogar! Vem pro culto comigo que a curiosidade passa.
Cida foi, mesmo preferindo missa. Mas, a curiosidade não passou e ela foi ao jogo com a colega do ônibus como quem não quer nada. Chegaram atrasadas por causa do pastor exaltado que não c parava de falar, porém discretíssima, sem salto nem maquiagem, e sentaram-se nos primeiros dois lugares livres que encontraram na pequena arquibancada improvisada com cadeiras dobráveis de bar. Do lado oposto erguia-se a área VIP: poltronas plásticas sobre um tablado com geladeiras de isopor contendo cerveja, refrigerante e até suco natural!
O jogo acabara de começar e Jair já a havia notado, mas disfarçou sua satisfação e nem lhe acenou, fingindo-se muito concentrado. “Este é o melhor jogo da minha vida!”, pensou.
E foi. Jair marcou dois gols, que deram a vitória ao Quadra Dez. Mais tarde, no churrasco de comemoração, ele foi aclamado o melhor jogador da história do time, com direito a brinde e desfile no ombro dos companheiros embriagados.
Envaidecido com as homenagens e, principalmente, com a presença de Cida, Jair atribuiu a inspiração dos gols a ela e os dois passaram a tarde em flerte adolescente. A colega não ficou na mão, recebendo atenções do goleiro reserva, que também era o mestre churrasqueiro.
À noitinha, Jair ofereceu-se para
acompanhar Cida em casa.
- Tu joga mesmo bem, seu Capeta.
- Foi tu que me fez jogar assim – nunca tinha jogado tão bem! Acho
que tu vai ter que vim a todos os jogo...
- Imagina só! O talento é teu
homem, tu podia ser profissional
se... -, e parou envergonhada com a frase inconveniente, - Desculpa. Não quis ofender.
- Não, não se desculpa, não,
linda. Não me ofendeu. Nasci assim. É assim que ando, corro, jogo melhor que os
outro com perna do mesmo tamanho e tá
bom. Faz tempo que me acostumei com o jeito do olhar dos outro e as coisa boba que algumas pessoa dizem.
“Eu também!”, Cida pensou, “só
que por outros motivo...”
- Imagino que é como ser famoso,
só que sem as glória da fama, - Jair
continuou, - mas eu tenho do meu lado a maior glória de todas e tô aqui caminhando com ela – finalizou
olhando-a com malícia.Cida parou de andar e eles se beijaram com paixão. Mesmo antes do abraço ousado, ela já sentiu um calor intenso envolvendo seu corpo ao mesmo tempo em que um frio na barriga a fazia se arrepiar toda. Jair tinha um gosto bom de doce de festa chique, aqueles com caramelo vidrado. “Isto sim é um beijo de verdade!”, pensou feliz da vida.
Depois de alguns passeios e jogos, beijos e amassos, estava claro para ambos que deveriam ficar juntos. Casaram-se em cerimônia civil e religiosa apenas para as famílias, conforme a vontade de Cida para agradar Auxi. Mas, após tanta discrição, os noivos receberam a vila toda na maior festança de que já se teve notícia por lá. Eles queriam e fizeram uma festa do tamanho de sua felicidade.
No dia seguinte, viajariam em lua de mel para Santos. Jair alugou um sedan e as amigas o enfeitaram com flores, latinhas, frases românticas e camisinhas comestíveis no porta-luvas.
Antes de pegarem a estrada, Jair estacionou próximo a uma casinha muito velha e modesta, com uma muretinha esmorecida e jardim abandonado. Jair tirou uma caixinha do bolso do paletó e Cida, que já havia ganhado anel de noivado e casamento, não fazia ideia do que poderia ser agora. Jair, então, anunciou solene:
- Este aqui é o meu ex-voto mais importante -, disse entregando a caixa para Cida.
Ela abriu com delicadeza e ao ver o que era sussurrou lentamente:
- Sapatinhos de bebê... Não entendi.
- Vem aqui fora comigo um instante -, saiu do carro e foi abrir a porta para ela, mas como não estava acostumada com tanta gentileza, já tinha saído quando ele chegou do outro lado. Deram-se as mãos e caminharam até o casebre. Jair colocou os sapatinhos na mureta e explicou:
- É uma velha história que termina com você, minha linda. Quando eu nasci, o médico disse pra minha mãe que eu provavelmente nunca ia andar, que ia ficar deformado conforme crescesse, que não tinha tratamento pro meu caso.
- Que horror! Isso não se diz pra mãe nenhuma! – exclamou Cida comovida com a história do marido.
- Pois é, a pobrezinha voltou pra casa - essa casinha aí - e
chorou dois dia sem parar. No
terceiro, ela decidiu que eu ia andar até de bicicleta – e andei mesmo - que ia
jogar bola e ia fazer bonito, ia namorar e me casar com uma moça linda e boa de
tudo – você! – e ia ter muita coragem e ser feliz com a graça de São Cosme e
São Damião.
- E ela conseguiu, meu amor! Você é o homem mais corajoso,
mais homem que eu já conheci. Tua mãe devia ser muito forte, dos santo forte.
- Era mesmo. Ela fez promessa pros santinho de dar doce para as criança
e bolo de chocolate no dia deles, de fazer sapatinho para todos os bebê que conhecesse todos os ano e também pras criança órfã– ela era muito boa no tricô, fazia até três sapatinho por noite, depois de trabalhar
o dia todo na cozinha industrial. Minha mãe cumpriu a promessa e, antes de
morrer, pediu para mim trazer aqui
com minha mulher esse último sapatinho que ela fez, que os santinho ia abençoar
para os nosso filho - , Jair terminou
emocionado, deixando a lembrança da dedicação da mãe e dos bolos de chocolate
invadirem sua intimidade de recém-casado.
- Você já tá pensando em filhos, é? – Cida perguntou
brincando para tirá-lo do devaneio nostálgico.
A ideia do sexo foi a primeiro que lhe veio à cabeça e o fez
rir.
- Ainda, não, minha linda. A gente tem muito que passear! –
e puxando-a pela cintura disse em um sussurro de galã latino - E começa agora!

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