Após um fim
de semana agitado, com aniversário e vitória do time, muita gente entrando e
saindo, jogando-lhe restos de comida e passando-lhe a mão na cabeça ao se
esgueirar pelo corredor apertado, escuro e húmido, passagem dos cubículos no
pátio do casarão do século XIX transformado em cortiço pelo proprietário agiota,
a cadelinha vira-lata de três meses estranhou o silêncio da manhã e pôs se a
ganir às cinco horas.
- Eu falei
que ia dar merda pegar esse cachorro – disse o homem dos palavrões.
- Mas, foi
tu que gastou todo o dinheiro do
presente de aniversário do Maurival! Aí, foi essa a opção que sobrou! – resmungou
a mulher, mãe do aniversariante.
- Já vou
avisando que se esse bicho da porra não calar a boca vamos ter que dar fim –
avisou o morador mais encrenqueiro.
– Tu não manda nada aqui, seu filho da puta! - A
mãe estava furiosa.
E quanto
mais a discussão caia de nível, mais gritavam a cadelinha e as crianças. O
confronto estava a poucos centímetros de se tornar físico quando alguém pisou
no filhote. Os ganidos chegaram a um milhão de decibéis e, num misto de terror absoluto
e heroísmo inconsciente, Maurival, o suposto dono, temendo pela vida do
bichinho, pegou-a no colo e saiu para a rua deixando os berros dos adultos e o
choro dos irmãos para trás.
Correu o
mais rápido que pôde, gastando todo folego que tinha. Quando parou exausto, não
tinha certeza de onde estava e a cachorrinha se debatia tentando escapar para o
chão. Amedrontado e sem forças, Maurival não teve como segurá-la mais e ela sumiu
em questão de segundos.
O menino
achou que fosse chorar, mas, na verdade, ainda não tinha se apegado ao animal,
tanto que nem nome ela tinha. E, sendo assim, não pôde chamá-la de volta.
Pensou também que se ele não tivesse mais aquele presente de aniversário,
poderia ganhar o ‘Campo de Batalha’ que havia pedido. Não se sentiu culpado
porque tinha nove anos de experiência em um ambiente totalmente insensível a qualquer
causa ou sentimento nobre, já tinha levado muita bordoada e vivido com a falta
de itens básicos, como carinho e educação. Além disso, sabia que ela tinha
chance de encontrar outro dono.
Para voltar
para casa, Maurival foi perguntando aos passantes se estava perto da Lanchonete
Halua, muito popular e vizinha ao cortiço. Chegou em casa por volta das 7
horas, levou uns tapas e ficou de castigo. A semana começou bem mal para ele,
mas pelo menos os adultos haviam parado de brigar e os irmãos, de chorar. Em
segredo combinaram de procurar pela cadelinha depois que os pais saíssem para
trabalhar.
Sinal
vermelho no cruzamento, aguardo na área ensolarada da faixa além dos carros, pensando
em como tenho sorte por poder andar de bicicleta em uma segunda-feira tão linda
assim.
Distraída,
admirando o azul intenso de inverno e poluição no céu, sinto um leve
desequilíbrio na bicicleta. Olho para os lados e não vejo ninguém, mas o peso estranho
permanece. Olho para baixo e ali está um filhote pretinho apoiando-se no quadro,
esperando atenção.
- Oi, neném!
Você tá passeando sozinho? – pergunto, fazendo festa para aquela carinha tão
simpática.
Em resposta,
ele abana o rabo e sai em disparada para o cruzamento.
- Volta aqui,
...! Volta, ...! – chamo inutilmente, sem saber seu nome. E no segundo em que
penso em largar a bicicleta para trazê-lo de volta à calçada e evitar que seja
atropelado, ele vai em direção ao
carro!
Apertei os
olhos até doerem, recusando-me a testemunhar a cena trágica que acompanharia a
batida surda que se seguiu. Mesmo assim, o sangue se esvaindo do corpinho
esmagado era o que eu via no asfalto até que os ganidos em movimento me arrancaram
deste imaginar horroroso.
Então, vi o
filhote correndo de volta para a calçada e deitando-se todo enroladinho contra
o muro, já sob o olhar de um passante que lhe acalmava.
Uma mulher
chegou aos prantos com seu carrinho de compras. – Eu vinha vindo desde lá e vi
o coitadinho zanzando sozinho. Ele está perdido! Ah, meu Deus, ele vai morrer?!
– perguntou-me em desespero.
- Parece que
ele está bem – afirmou o homem que o observava.
- Há um
veterinário logo ali. Vamos levá-lo para ter certeza – eu disse com uma
objetividade absurda diante de minha comoção.
- Deixa que
eu pago as despesas! – a mulher estava decidida a salvar o bichinho, - mas não
posso pegá-lo por causa deste maldito carrinho! Ah, meu deus, ele vai morrer...
– dizia entre soluços.
- Não vai,
não! Leva minha bike que eu pego ele – decidi, entregando minha bicicleta para
o homem e carregando o cachorro sem receio de ser mordida.
Caminhamos
como uma equipe de resgate até o veterinário, que o examinou podendo constatar que era uma fêmea de aproximadamente
três meses e estava bem, mas deveria ficar em observação até as 15 horas.
Aliviada, a
mulher chorou ainda mais e pagou a consulta com prazer enquanto eu considerava
ficar com a cadelinha que chamei de Sorte Minha.

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