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sábado, 7 de julho de 2012

SORTE MINHA


Após um fim de semana agitado, com aniversário e vitória do time, muita gente entrando e saindo, jogando-lhe restos de comida e passando-lhe a mão na cabeça ao se esgueirar pelo corredor apertado, escuro e húmido, passagem dos cubículos no pátio do casarão do século XIX transformado em cortiço pelo proprietário agiota, a cadelinha vira-lata de três meses estranhou o silêncio da manhã e pôs se a ganir às cinco horas.

 Às 5:01, um homem já urrava palavrões e uma mulher berrava ordens de silêncio à cadelinha, mas estas só fizeram aumentar seus protestos. Em meia hora, todos no cortiço estavam acordados discutindo o inconveniente sob os ganidos estridentes do animal e o choro das oito crianças. Adultos mais exaltados queriam dar-lhe um fim.

- Eu falei que ia dar merda pegar esse cachorro – disse o homem dos palavrões.

- Mas, foi tu que gastou todo o dinheiro do presente de aniversário do Maurival! Aí, foi essa a opção que sobrou! – resmungou a mulher, mãe do aniversariante.

- Já vou avisando que se esse bicho da porra não calar a boca vamos ter que dar fim – avisou o morador mais encrenqueiro.

– Tu não manda nada aqui, seu filho da puta! - A mãe estava furiosa.

E quanto mais a discussão caia de nível, mais gritavam a cadelinha e as crianças. O confronto estava a poucos centímetros de se tornar físico quando alguém pisou no filhote. Os ganidos chegaram a um milhão de decibéis e, num misto de terror absoluto e heroísmo inconsciente, Maurival, o suposto dono, temendo pela vida do bichinho, pegou-a no colo e saiu para a rua deixando os berros dos adultos e o choro dos irmãos para trás.

Correu o mais rápido que pôde, gastando todo folego que tinha. Quando parou exausto, não tinha certeza de onde estava e a cachorrinha se debatia tentando escapar para o chão. Amedrontado e sem forças, Maurival não teve como segurá-la mais e ela sumiu em questão de segundos.

O menino achou que fosse chorar, mas, na verdade, ainda não tinha se apegado ao animal, tanto que nem nome ela tinha. E, sendo assim, não pôde chamá-la de volta. Pensou também que se ele não tivesse mais aquele presente de aniversário, poderia ganhar o ‘Campo de Batalha’ que havia pedido. Não se sentiu culpado porque tinha nove anos de experiência em um ambiente totalmente insensível a qualquer causa ou sentimento nobre, já tinha levado muita bordoada e vivido com a falta de itens básicos, como carinho e educação. Além disso, sabia que ela tinha chance de encontrar outro dono.

Para voltar para casa, Maurival foi perguntando aos passantes se estava perto da Lanchonete Halua, muito popular e vizinha ao cortiço. Chegou em casa por volta das 7 horas, levou uns tapas e ficou de castigo. A semana começou bem mal para ele, mas pelo menos os adultos haviam parado de brigar e os irmãos, de chorar. Em segredo combinaram de procurar pela cadelinha depois que os pais saíssem para trabalhar.

Sinal vermelho no cruzamento, aguardo na área ensolarada da faixa além dos carros, pensando em como tenho sorte por poder andar de bicicleta em uma segunda-feira tão linda assim.

Distraída, admirando o azul intenso de inverno e poluição no céu, sinto um leve desequilíbrio na bicicleta. Olho para os lados e não vejo ninguém, mas o peso estranho permanece. Olho para baixo e ali está um filhote pretinho apoiando-se no quadro, esperando atenção.

- Oi, neném! Você tá passeando sozinho? – pergunto, fazendo festa para aquela carinha tão simpática.

Em resposta, ele abana o rabo e sai em disparada para o cruzamento. 

- Volta aqui, ...! Volta, ...! – chamo inutilmente, sem saber seu nome. E no segundo em que penso em largar a bicicleta para trazê-lo de volta à calçada e evitar que seja atropelado, ele vai em direção ao carro!  

Apertei os olhos até doerem, recusando-me a testemunhar a cena trágica que acompanharia a batida surda que se seguiu. Mesmo assim, o sangue se esvaindo do corpinho esmagado era o que eu via no asfalto até que os ganidos em movimento me arrancaram deste imaginar horroroso. 

Então, vi o filhote correndo de volta para a calçada e deitando-se todo enroladinho contra o muro, já sob o olhar de um passante que lhe acalmava. 

Uma mulher chegou aos prantos com seu carrinho de compras. – Eu vinha vindo desde lá e vi o coitadinho zanzando sozinho. Ele está perdido! Ah, meu Deus, ele vai morrer?! – perguntou-me em desespero. 

- Parece que ele está bem – afirmou o homem que o observava. 

- Há um veterinário logo ali. Vamos levá-lo para ter certeza – eu disse com uma objetividade absurda diante de minha comoção. 

- Deixa que eu pago as despesas! – a mulher estava decidida a salvar o bichinho, - mas não posso pegá-lo por causa deste maldito carrinho! Ah, meu deus, ele vai morrer... – dizia entre soluços. 

- Não vai, não! Leva minha bike que eu pego ele – decidi, entregando minha bicicleta para o homem e carregando o cachorro sem receio de ser mordida.  

Caminhamos como uma equipe de resgate até o veterinário, que o examinou podendo  constatar que era uma fêmea de aproximadamente três meses e estava bem, mas deveria ficar em observação até as 15 horas. 

Aliviada, a mulher chorou ainda mais e pagou a consulta com prazer enquanto eu considerava ficar com a cadelinha que chamei de Sorte Minha.

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