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terça-feira, 24 de julho de 2012

DÍVIDA



DÍVIDA
Jean Paul desligou o telefone com um gesto lento e pesado, prenúncio de uma fase sombria em que lhe faltariam até os palavrões tão característicos de sua expressão efusiva e sincera, muitas vezes para melhorar a verdade, como acontece com os românticos incuráveis.  

Recém-divorciado, devendo três meses de aluguel, estourado o limite do cheque especial, sem cara para pedir mais dinheiro emprestado aos amigos ou à família e com caráter demais para esperar que o proprietário entrasse com ação de despejo, a partir daquele momento Jean Paul podia se considerar um autêntico sem-teto. 

Vasculhando a lista de alternativas que incluíam o viaduto da Praça XV ou da Penha, Jean Paul decidiu pedir emprestada ao pai a casinha no ermo sertão da estrada de Teresópolis.  Por alguns meses teria de viver longe dos palcos e da esbórnia carioca que tanto o inspirava. Com certeza a experiência o tornaria mais saudável, purificando corpo e espírito tão expostos aos excessos da diversão extrema.  

E foi com este pensamento do otimismo ingênuo que sempre lhe abrira tantas portas que Jean Paul também decidiu recorrer às forças ocultas, outras velhas conhecidas de horas de trabalho voluntário no Centro das Almas Aflitas, curando padecimentos físicos e encostos espirituais com diplomacia, fé e abnegação. Depois, como recompensa por seu talento criativo e dedicação, vieram a fama e o esquecimento de muitas regras do divino. 

Jean Paul acreditava, no entanto, que a regra primordial, a do perdão, não lhe faltaria agora. O filho pródigo merece ser perdoado porque com ele o equilíbrio natural-sobrenatural é restabelecido e expandido para todas as dimensões em que habitam as almas, com ele se fortalece o reino, o regente e os regidos. A presente situação era prova de que este era o seu papel no plano maior. 

Primeiro ligou para o pai, que também entendeu a mudança como oportunidade de reflexão para o filho. Depois acertou com um amigo para o domingo à noite o transporte dos poucos objetos que não havia vendido e, por fim, visitou o Centro.  

Como o pai, os ex-colegas se mostraram receptivos e prontos a ajudar. - Será que a coisa está mais feia do que imagino? - pensou intrigado e assustado estaria se não tivesse fé. Mas, fato foi que o espírito que lhe falou pela boca de Pai Oxóssi mandou que ele subisse o morro naquela mesma noite para despachar com aquele que não era nem homem e nem mulher e, felizmente, deu-lhe um endereço, uma lanterna e dinheiro para a condução. - Vai sem medo que ele tem a solução pra tua hora de aflição, meu filho -, sussurrou o médium. 

Jean Paul agradeceu a instrução e foi confiante ao encontro do desconhecido. O taxista o deixou no pé do morro sem iluminação. - Só dá pra ir até aqui, amigo. Daqui pra cima é só picada. Tu tem lanterna? Bom, vai precisar. É um breu só nessa mata. Valeu o troco. Boa sorte! –, o homem se despediu aliviado por partir. 

Após 40 minutos de subida, Jean Paul bateu palmas à porta de treliça de um barraco. Mesmo fechada, ela só filtrava a luz que emanava do interior do cubículo, iluminado os últimos minutos da caminhada, quando as pilhas da lanterna já haviam se acabado.

- Vai entrando, a casa é sua! – convidou aquele... aquela pessoa que já o esperava. – Num precisa falar, não, mas tem que olhar nos olhos e me dá a mão.  

Jean Paul queria se explicar, mas a Pessoa levou o dedo aos lábios pedindo silêncio e sacudiu a cabeça segurando-lhe as duas mãos na sua, enquanto o benzia com a outra. Aquilo durou três minutos, duas horas? Não dava para saber.  - Agora vai pra casa dormir que os mensageiros já estão levando a sua resposta – ordenou a Pessoa. 

Às nove horas do sábado, o telefone tocou insistente. Uma voz feminina muito animada tagarelava zoando a cabeça de Jean Paul. - É você que está procurando alguém para dividir o apê? Então, posso ir agora?  É que estou com pressa para resolver minha mudança. Tenho que viajar amanhã. Posso ir, então? Falou! Na verdade, já estou aqui embaixo. subindo em dez minutos porque sei que te acordei.  

- Que demais o teu espaço, cara! Adorei! Vou ficar!

- Acho que você não entendeu. Eu já entreguei o apartamento. Estou saindo amanhã. Você tem que falar com o proprietário.

- Ah, não faz isso não! Não tenho como pagar sozinha, ver contrato, essa merda toda... e a localização daqui é perfeita pra mim! Olha só, posso pagar três meses adiantados e se você não fizer questão da suíte, aumento em 30% o que você tá pedindo. Topa? 

Jean Paul topou. 

- Agora vamos comemorar! Vi uma padaria aqui perto com um café da manhã caprichado. Vamos lá?
- Querida, você não está entendendo que eu não tenho mesmo dinheiro nenhum?
- Ah, deixa disso, Jean! Posso te chamar de Jean, né? Você é meu convidado! Afinal, te tirei da cama.
- Não vou poder retribuir tão cedo.
- Não precisa. Vamos lá?

Mal haviam entrado na padaria, um famoso produtor musical que há séculos ficara de dar resposta sobre um contrato com Jean Paul o saúda calorosamente, monopolizando a atenção de todos. - Meu querido, que maravilha te encontrar aqui hoje!! Quero retomar aquele contrato do álbum com 12 faixas. pronto pra gravar? Segunda-feira, então, passa na gravadora pra assinar. Fechado? Agora, dá licença que vou levar as crianças à praia. Bon appetit, Jean Paul! Tchau, gata.

A resposta veio tão rápido que Jean Paul só relacionou os acontecimentos depois de comer. - Puta que o pariu! A Pessoa era mesmo do caralho! - , a abundância tinha voltado à boca e ao bolso de Jean Paul. E a primeira coisa a fazer era pagar a divina eficiência. Voltou à cabana, mas não encontrou ninguém. Foi ao Centro, mas lá não constava nenhuma dívida. Relaxou.

 Os anos se sucederam e o sucesso era parte integrante da vida de Jean Paul. Cinco anos após o salvamento, Jean Paul havia comprado um apartamento na Vieira Souto, no Rio de Janeiro, e outro na Alameda Lorena, em São Paulo. Circulava incansável entre os polos culturais do Brasil, compunha semanalmente, fazia shows, era convidado especial nos programas de auditório da TV e, nas baladas, VIP.

Em uma festa de lançamento da coleção primavera-verão da Preta-Porter, ficou amigo de uns franceses muito curiosos sobre a umbanda. Com o maior prazer, Jean Paul se prontificou a levá-los no dia seguinte.

A alegria da comunidade do Centro das Almas Aflitas em vê-lo era só comparável ao agradecimento pela doação mensal que Jean Paul fazia às obras de assistência social do Centro. Ele posava orgulhoso e feliz com as crianças para as fotos dos franceses.

Na hora dos trabalhos, sentaram-se em grupo e Jean Paul explicava aos estrangeiros as falas dos rituais quando, para sua absoluta surpresa, ele foi assinalado pelo médium.

- Ocê, gringo safado, mi devendo tem cinco ano de terra!
- Como assim, estou devendo?! - perguntou absolutamente surpreso.
- Num foi ocê que subiu o morro pra fala cum aqueli qui num é homi nem muié?
- Foi. E se estou devendo, é só falar que eu pago. O que estou devendo?
- Tudo qui a boca comi!
- Tudo que a boca come?! – pensou um instante e concluiu, - É um banquete pro santo!

E Jean Paul passou os três dias seguintes providenciando cestas de frutas, verduras, carnes e doces que acabariam no bico dos pássaros e no bucho dos cães e gatos que pulassem os muros do Centro, todos enviados em missão que durou sete dias e sete noites.

Na sétima noite, Jean Paul sonhou que subia o morro acompanhado pelos animais, que lhe lambiam as mãos, os passarinhos brincando com seu cabelo, bem mais comprido no sonho. Chegando ao cume, no lugar onde estava o barraco, havia uma estátua de figura humana gargalhando. Jean Paul chegou bem perto procurando uma placa que a identificasse, mas só ouviu uma vozinha vindo de dentro do bronze, - Fio, danado! Nunca mais vô tê fomi!

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