DÍVIDA
Jean Paul desligou o telefone com
um gesto lento e pesado, prenúncio de uma fase sombria em que lhe faltariam até
os palavrões tão característicos de sua expressão efusiva e sincera, muitas
vezes para melhorar a verdade, como acontece com os românticos incuráveis.
Recém-divorciado, devendo três
meses de aluguel, estourado o limite do cheque especial, sem cara para pedir mais
dinheiro emprestado aos amigos ou à família e com caráter demais para esperar
que o proprietário entrasse com ação de despejo, a partir daquele momento Jean
Paul podia se considerar um autêntico sem-teto.
Vasculhando a lista de alternativas
que incluíam o viaduto da Praça XV ou da Penha, Jean Paul decidiu pedir
emprestada ao pai a casinha no ermo sertão da estrada de Teresópolis. Por alguns meses teria de viver longe dos
palcos e da esbórnia carioca que tanto o inspirava. Com certeza a experiência o
tornaria mais saudável, purificando corpo e espírito tão expostos aos excessos
da diversão extrema.
E foi com este pensamento do
otimismo ingênuo que sempre lhe abrira tantas portas que Jean Paul também
decidiu recorrer às forças ocultas, outras velhas conhecidas de horas de
trabalho voluntário no Centro das Almas Aflitas, curando padecimentos físicos e
encostos espirituais com diplomacia, fé e abnegação. Depois, como recompensa
por seu talento criativo e dedicação, vieram a fama e o esquecimento de muitas
regras do divino.
Jean Paul acreditava, no entanto,
que a regra primordial, a do perdão, não lhe faltaria agora. O filho pródigo
merece ser perdoado porque com ele o equilíbrio natural-sobrenatural é
restabelecido e expandido para todas as dimensões em que habitam as almas, com
ele se fortalece o reino, o regente e os regidos. A presente situação era prova
de que este era o seu papel no plano maior.
Primeiro ligou para o pai, que
também entendeu a mudança como oportunidade de reflexão para o filho. Depois
acertou com um amigo para o domingo à noite o transporte dos poucos objetos que
não havia vendido e, por fim, visitou o Centro.
Como o pai, os ex-colegas se
mostraram receptivos e prontos a ajudar. - Será que a coisa está mais feia do
que imagino? - pensou intrigado e assustado estaria se não tivesse fé. Mas,
fato foi que o espírito que lhe falou pela boca de Pai Oxóssi mandou que ele subisse
o morro naquela mesma noite para despachar com aquele que não era nem homem e
nem mulher e, felizmente, deu-lhe um endereço, uma lanterna e dinheiro para a
condução. - Vai sem medo que ele tem a solução pra tua hora de aflição, meu
filho -, sussurrou o médium.
Jean Paul agradeceu a instrução e
foi confiante ao encontro do desconhecido. O taxista o deixou no pé do morro
sem iluminação. - Só dá pra ir até aqui, amigo. Daqui pra cima é só picada. Tu tem lanterna? Bom, vai precisar. É um
breu só nessa mata. Valeu o troco. Boa sorte! –, o homem se despediu aliviado
por partir.
Após 40 minutos de subida, Jean
Paul bateu palmas à porta de treliça de um barraco. Mesmo fechada, ela só
filtrava a luz que emanava do interior do cubículo, iluminado os últimos
minutos da caminhada, quando as pilhas da lanterna já haviam se acabado.
- Vai entrando, a casa é sua! –
convidou aquele... aquela pessoa que já o esperava. – Num precisa falar, não,
mas tem que olhar nos olhos e me dá a mão.
Jean Paul queria se explicar, mas a
Pessoa levou o dedo aos lábios pedindo silêncio e sacudiu a cabeça
segurando-lhe as duas mãos na sua, enquanto o benzia com a outra. Aquilo durou
três minutos, duas horas? Não dava para saber. - Agora vai pra casa dormir que os mensageiros
já estão levando a sua resposta – ordenou a Pessoa.
Às nove horas do sábado, o telefone
tocou insistente. Uma voz feminina muito animada tagarelava zoando a cabeça de
Jean Paul. - É você que está procurando alguém para dividir o apê? Então, posso ir agora? É que estou com pressa para resolver minha
mudança. Tenho que viajar amanhã. Posso ir, então? Falou! Na verdade, já estou
aqui embaixo. Tô subindo em dez
minutos porque sei que te acordei.
- Que demais o teu espaço, cara!
Adorei! Vou ficar!
- Acho que você não entendeu. Eu já
entreguei o apartamento. Estou saindo amanhã. Você tem que falar com o
proprietário.
- Ah, não faz isso não! Não tenho
como pagar sozinha, ver contrato, essa merda toda... e a localização daqui é
perfeita pra mim! Olha só, posso pagar três meses adiantados e se você não
fizer questão da suíte, aumento em 30% o que você tá pedindo. Topa?
Jean Paul topou.
- Agora vamos comemorar! Vi uma
padaria aqui perto com um café da manhã caprichado. Vamos lá?
- Querida, você não está entendendo
que eu não tenho mesmo dinheiro nenhum? - Ah, deixa disso, Jean! Posso te chamar de Jean, né? Você é meu convidado! Afinal, te tirei da cama.
- Não vou poder retribuir tão cedo.
- Não precisa. Vamos lá?
Mal haviam entrado na padaria, um
famoso produtor musical que há séculos ficara de dar resposta sobre um contrato
com Jean Paul o saúda calorosamente, monopolizando a atenção de todos. - Meu
querido, que maravilha te encontrar aqui hoje!! Quero retomar aquele contrato
do álbum com 12 faixas. Tá pronto pra
gravar? Segunda-feira, então, passa na gravadora pra assinar. Fechado? Agora,
dá licença que vou levar as crianças à praia. Bon appetit, Jean Paul! Tchau, gata.
A resposta veio tão rápido que Jean
Paul só relacionou os acontecimentos depois de comer. - Puta que o pariu! A
Pessoa era mesmo do caralho! - , a abundância tinha voltado à boca e ao bolso
de Jean Paul. E a primeira coisa a fazer era pagar a divina eficiência. Voltou
à cabana, mas não encontrou ninguém. Foi ao Centro, mas lá não constava nenhuma
dívida. Relaxou.
Em uma festa de lançamento da
coleção primavera-verão da Preta-Porter, ficou amigo de uns franceses muito
curiosos sobre a umbanda. Com o maior prazer, Jean Paul se prontificou a levá-los
no dia seguinte.
A alegria da comunidade do Centro
das Almas Aflitas em vê-lo era só comparável ao agradecimento pela doação
mensal que Jean Paul fazia às obras de assistência social do Centro. Ele posava
orgulhoso e feliz com as crianças para as fotos dos franceses.
Na hora dos trabalhos, sentaram-se
em grupo e Jean Paul explicava aos estrangeiros as falas dos rituais quando,
para sua absoluta surpresa, ele foi assinalado pelo médium.
- Ocê, gringo safado, tá mi devendo tem cinco ano de terra!
- Como assim, estou devendo?! -
perguntou absolutamente surpreso.- Num foi ocê que subiu o morro pra fala cum aqueli qui num é homi nem muié?
- Foi. E se estou devendo, é só falar que eu pago. O que estou devendo?
- Tudo qui a boca comi!
- Tudo que a boca come?! – pensou um instante e concluiu, - É um banquete pro santo!
E Jean Paul passou os três dias
seguintes providenciando cestas de frutas, verduras, carnes e doces que
acabariam no bico dos pássaros e no bucho dos cães e gatos que pulassem os
muros do Centro, todos enviados em missão que durou sete dias e sete noites.
Na sétima noite, Jean Paul sonhou
que subia o morro acompanhado pelos animais, que lhe lambiam as mãos, os
passarinhos brincando com seu cabelo, bem mais comprido no sonho. Chegando ao
cume, no lugar onde estava o barraco, havia uma estátua de figura humana
gargalhando. Jean Paul chegou bem perto procurando uma placa que a
identificasse, mas só ouviu uma vozinha vindo de dentro do bronze, - Fio, danado! Nunca mais vô tê fomi!

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