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quinta-feira, 26 de julho de 2012

A PROMETIDA



Quase no altar, Edu se desvencilhou da noiva contadora. As semanas que antecederam a decisão foram de angústia e sem-vergonhice – ele queria provar para si mesmo que não merecia moça tão boa, coisa que, é claro, não era verdade, mas, enfim, a mente faz o que é preciso para o sujeito sobreviver. Meio afogado por tantas lágrimas da ex-noiva, porém sem culpa, ele chegou moço solteiro a Arraial d’Ajuda em uma manhã de sol e promessa de recomeço. Era preciso sumir por uns tempos, até que todos estivessem recompostos do choque. – Não pode levar mais que uns meses... -, Edu ponderou com esperança antes de partir.

A vila era o paraíso de Alá prometido aos suicidas da causa! Muito mar verde-azul, muita praia para lavar a alma, brasileiras e estrangeiras, virgens ou nem tanto, caminhavam pelas ruas de terra em vestidos despretensiosos que mostravam mais do que escondiam, um deleite para os olhos e a imaginação dos homens. E Edu não era diferente: mesmo sem saber ainda, porque imaginava que queria dar um tempo com as mulheres, ele investiria seus esforços e o dinheiro da venda do apartamento do ex-casal para agradar as moças bonitas, as simpáticas e mais todas as que gostassem dele, mas não para casar.

Edu tinha uma reserva na pousada Canto Azul, um lugarzinho modesto com paredes pintadas de um azul caiado quase triste não fosse a exuberância das plantas decorativas. - Um microcosmo da Mata Atlântica! Dá até para ouvir os pássaros e saguis... Meu lar nos próximos três meses -, pensou satirizando a própria escolha.

Clara, a dona do Canto Azul, era uma mulher de meia-idade morena e voluptuosa, falante na medida para ser simpática, mas sem conversa besta. – Olha, seu Eduardo, como o senhor deve ter visto no site, esse é o quarto para estadia longa - disse abrindo a porta do último quarto do corredor. - Troco os lençóis e as toalhas a cada semana, para preservar o meio-ambiente. Se precisar trocar antes, tem R$ 15 de taxa de preservação – anunciou como se fizesse parte do ativismo ambientalista local e prosseguiu sem esperar comentário ou protesto. – As regras e horários estão aqui atrás da porta.

Clara deu a Edu o pior quarto da pousada na esperança de que ele, apesar de querer pagar adiantado, decidisse ir embora antes do prazo. Ela tinha desconfiança dos hóspedes que vinham com essa ideia de remediar a vida na vila. Na sua experiência, as coisas sempre acabavam em alguma confusão, com casamentos desfeitos, briga de facão e o diabo.

Edu realmente achou o quarto pobrinho e apertado, mas dava para o gasto.  Tinha TV, a cama era boa, o banheiro no corredor limpo. – Com um marzão desses lá fora, vou ficar pouco aqui dentro. Se o chuveiro for quente (ele detestava banho frio) tá valendo! - avaliou consigo.

Os primeiros dias foram de reconhecimento: o melhor canto da praia, a melhor moqueca, o melhor bar, a melhor prática de capoeira, os músicos, os boêmios úteis à arte popular. Em três semanas, Edu se entrosara com os personagens locais e já fazia parte da vida na vila. Alguns amigos foram visitá-lo, levando as notícias que ele recusava receber da família e da ex-noiva, que estava em depressão porque não conseguia dar a volta por cima, esquecer o canalha filho da puta imbecil que a deixou quase no altar. A conversa para continuar tinha que ser sobre o que vamos fazer hoje.

E hoje sempre tinha café da manhã com banana da terra, tapioca, mergulho, sair de barco com Tonhão, o melhor pescador, almoçar uma moqueca ou peixe na brasa, cerveja gelada, pinga para fechar, jogar bola, até anoitecer, conversa na praia. Às vezes tinha convite para jantar, dançar, cantar, jogar, transar. Dormir junto, não – todas sabiam que ele não aceitava.

No dia em que a cota do plano de fuga acabou, Edu recebeu proposta de Clara para ficar mais uma semana sem custo, refeições inclusas. - Você pode fazer um site mais bonito pra pousada e me trazer um peixe ou dois - ela propôs sem nove horas. – Vai se despedindo do povo aos poucos...

Era irrecusável. O que o esperava em São Paulo era a casa da mãe, dias de visitas, críticas, dinâmicas, entrevistas e, com alguma sorte, um emprego ao fim de tudo. Edu não tinha certeza de que fosse isso que desejasse de fato, mas, como não havia outra coisa além dos hojes na vila e o sonho de ter um barco, ele voltaria a São Paulo para juntar dinheiro e montar um negócio no litoral norte.

Antes de partir, o paulista ganhou três festas de despedida e presentes dos amigos que fez nos intensos três meses e meio em Arraial. De Clara recebeu a gravaçãozinha dos pássaros da Mata, para lembrar do Canto Azul, senão dela própria. Ganhou do Tonhão o anzol da primeira cavala que pescou, um peixão de quase 30 quilos que garantiu o almoço de sábado e domingo de toda família do Tonhão, sendo ele o convidado de honra! Laura lhe deu o beijo que ele esperou desde o primeiro dia em que a conheceu na padaria, assando e vendendo pão. – Nunca me passou pela cabeça ideia de mulher padeira, ainda mais gostosa assim. – Passou a comer mais pão, mas sem manteiga. E assim, foi juntando presentes e lembranças até encher mais uma mala e partiu com todos os nomes e endereços na cabeça, alguns telefones também, que esqueceria quando fosse hora.

Chegou ao aeroporto de Porto Seguro duas horas antes do voo. Edu já estava morrendo de fome, uma coisa que havia tempo não sentia – como tinha ficado mal acostumado às comidinhas na mão! E se tinha alguma coisa que deixava Edu menos simpático era fome. Era algo assim como a transformação do paciente e gentil Dr. David Banner no incrível Hulk, mas em câmara mais lenta, de um modo que a olho nu não se notava. E, para evitar o mesmo despertar desconcertante do cientista despido e confuso, Edu, como o Dr. Banner, fazia de tudo para não se transformar. Foi logo ao primeiro quiosque que encontrou e pediu ao atendente, - Amigo, me vê uma coxinha, por favor.

O rapaz, que conversava com duas moças debruçado sobre o balcão, respondeu sem pressa e sem olhar para o freguês aflito, - Só um minutinho. - O minutinho passou com mais três e nada. Edu pediu de novo, - Ô, amigo, a minha coxinha... – De novo o moço respondeu arrastado, - Só um minutinho -, e gargalhou com as moças. Os olhos castanhos de Edu já estavam verdes e ele insistiu para o bem de todos, - Amigo, faz mais de cinco minutos que estou esperando a coxinha... - O rapaz voltou-se irritado, porém moroso, - Oxe, esse povo de São Paulo é tudo estressado - e riu com um desdém que Edu deixou passar para não piorar a situação. – Diga, moço, que coxinha o senhor quer? - Edu animou-se e disparou tão gentil quanto podia com as pontas das unhas já esverdeadas indicando a maior coxinha do refratário, - Pode ser esta daqui!

- Essa pode não, moço. Já tá prometida a outro -, responde falando mole.
- Tá. Pode ser essa daqui então -, diz Edu com o último fio de paciência na voz.
- Oxe, essa também tá prometida! - ele diz lânguido e pisca para as moças.

Quase espumando verde, Edu dá o ultimato:

- Se esta outra coxinha estiver prometida, seu palhaço, eu vou te encher de porrada! –avisa ao apontar a terceira e derradeira coxinha.

- Também es... – e a frase se interrompeu com o primeiro soco, que acertou o ar porque o rapaz tinha ficado esperto de repente, pulando para trás como um gato. As moças gritam. Edu se atira por cima do balcão derrubando os potes de pimenta, ketchup e mostarda. Avança para o rapaz com os punhos brancos (estariam verdes não fosse a força com que os cerrava) e cego de raiva resvala mais um golpe no palhaço imberbe. O quiosque torna-se um ringue e atrai os passantes. Pode-se ouvir alguém comentar: - Sabia que esse folgado ia acabar levando uma! - Os combatentes se encaram com fúria. Edu, que não é de briga apesar da fome transmutá-lo, acerta o atendente uma vez.  Ele grita por socorro, - Seu Ramos, seu Ramos, acuda aqui!!! É ladrão assassino!! – exagera o rapaz já com o olho inchando roxo. Por sorte, um freguês que comia empadas no balcão e testemunhara a afronta desde o início, avisa Edu: - SAI FORA que é a polícia, cara! SAI FORA AGORA!!!

A polícia chega e o tumulto é desfeito, mas não sem antes Edu enfiar duas coxinhas no bolso do casaco, saltar para fora do quiosque e misturar-se à multidão atarantada. Com a adrenalina berrando no sangue, Edu entra na livraria do aeroporto e abocanha a primeira prometida, sentindo o prazer da vitória. Com coragem, admitiu para si mesmo que estava mudado. Para melhor.

2 comentários:

  1. quando muda, muda sempre para melhor sempre ouvi dizer...

    beijo

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  2. kkkkk.......que aventura, hein.....eu conheço por lá....kkkkk

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