Quando foi para cama às três horas da manhã a única coisa que Carol queria era dormir até a uma da tarde do dia seguinte, o domingo do bode. Mas, contra todos os planos e expectativas, ela acordou com uma pontada nas costas às 8:23 e, mesmo com todo o sono do mundo, não conseguiu dormir mais com a dor tão aguda.
Assustada com a novidade, ela pensou em buscar socorro junto à mãe, porém logo desistiu do primeiro impulso, porque não estava a fim de aturar sermão – você dorme pouco, não se alimenta direito, trabalha demais, tem uma vida desregrada, está gorda, sua pele... – “o que tinha de errado com a minha pele?”, e dias a fio de acompanhamento telefônico sempre com as mesmas admoestações.
Ir ao pronto-socorro nem lhe passou pela cabeça. Afinal, uma moça saudável de 28 anos tinha mais o que fazer além de aguardar horas para tomar soro na veia e ser mandada para casa com um remedinho qualquer, coisa que Janice, a amiga hipocondríaca do escritório podia fazer com maestria.
E assim, entre um chá calmante e uma aspirina, Carol suportou bravamente sua agonia até às 10h, quando ligou para Janice.
- Que voz horrível é essa? Você tá mal?
- Acordei com uma pontada nas costas que não passa... tá doendo muito. O que eu faço?
- Pera aí, primeiro tenho que descobrir a origem do problema. Você carregou peso?
- Não.
- Malhou demais?
- Não. Você sabe que odeio academia!
- Fez movimentos bruscos, novos e repentinos ontem, hein?
- Não. Fui jantar na casa da Tata e do Marcelo com o Bobi, a Diva e o Tonho. Ficamos conversando até tarde. Foi só.
- Ah, sei, o tal jantar da reconciliação... Deixa eu ver... Há quanto tempo você tem seu colchão?
- Desde que me mudei pra São Paulo, há uns 10 anos. Por quê?
- Grandes chances de ser colchão vencido. Além disso, você engordou de lá pra cá?
- Não vai começar a me encher com isso!
- Você quer que eu te ajude a resolver seu problema? O aumento de peso faz parte do quadro.
- Tá bom... Engordei uns 15 quilos.
- Vou aí te levar um diclofenaco não-esteróide e ver seu colchão. Chego em uma hora.
- Obrigada, amiga! Vou deixar a porta aberta.
Com prazer, Janice correu com a vidinha de domingo de manhã para acudir a amiga. Em 40 minutos já estava lá, com o diclofenato, bolsa termo gel no banho-maria, arrancando os lençóis da cama para averiguar o colchão.
- Olha só pra isso, Carol! Seu colchão parece uma half-pipe!
- Quê?! Puxa, é mesmo... Que vergonha!
- É melhor dormir no chão do que num troço desses! Você pode e precisa de um colchão de rainha! Queen size, daquele branco e alto, igual ao meu.
- Ah, é... legal mesmo. Vou comprar amanhã. Vem comigo?
- Amanhã não posso. Mas hoje posso almoçar e te faço companhia até as quatro, se você quiser.
- Oh, se quero! Tô imprestável! E vou ter que dormir no chão...
- Coitadinha! – E, olhando em volta, comentou - Olha só que bonito... Agora que vi que você pintou a sala de Fendi! Ficou o máximo! Quando foi que mudou?
- Faz uns quatro meses.
- Nossa, faz todo esse tempo que eu não venho aqui?
- É, faz. Desde que você começou a namorar o Dr. Sílvio... – Carol sabia que mesmo que Janice percebesse a discreta queixa no comentário, não se pronunciaria. E por que deveria? Para Carol a amizade estava acima dos pequenos abandonos e ciúmes. E ela era uma mulher independente, generosa e equilibrada. - Sabe quem pintou? Eu mesma! – Também tinha muitos talentos.
- Não?!
Carol e Janice conversaram sobre o namoro com o clínico geral, cozinharam penne al limone, almoçaram com Suavignon Blanc e Carol acabou adormecendo pouco antes das quatro.
Janice ajeitou a amiga no sofá e escreveu um bilhete – “Melhor você dormir no sofá hoje. O almoço estava ótimo, adorei te ver! Dê notícias. Beijo”.
Ao acordar às seis horas, Carol se sentia nova em folha e decidiu sair para tomar um espresso e comprar umas revistas para a leitura de domingo.
Na segunda-feira, acordou ótima mesmo tendo dormido no sofá. De fato, o colchão era o vilão da história e ela trabalhou arduamente em sua agência da Paulista, imaginando como seria gostoso arrumar a cama nova!
No fim do expediente, ela foi direto à loja de colchões próxima a seu apartamento, supondo que assim seria mais fácil levá-lo direto para casa. Não queria esperar prazo de entrega e o diabo. Ia pôr o colchão no carro como desse e, com a ajuda do porteiro, o colocaria na cama.
A loja estava vazia e um homem alto, de cabelos grisalhos e aparência um tanto enxovalhada terminava uma conversa com um outro que saía apressado. Carol caminhou até o interior da loja, cumprimentou o homem grisalho e disse que gostaria de ver um colchão queen size. O homem apontou para dois colchões que estavam encostados na parede com um cartazinho de cartolina informando o preço em até cinco vezes.
- Ah, não. Eu queria daqueles brancos e altos, parecidos com este aqui. – Disse sentando-se no modelo com molas, quando o telefone começou a tocar. O homem pareceu um pouco desconcertado por estar sozinho na loja com uma cliente e o telefone tocando.
- Você quer o de molas. – disse apressado e, voltado-se para atender o telefone, informou-lhe o preço em até cinco vezes.
Carol, que sempre deu prioridade ao cliente presente na agência, não entendeu o preço e pediu que o homem o repetisse. Ele estava claramente atordoado, mas ela pensou que a venda poderia ajudá-lo a ter mais foco. Afinal, que vendedor não gosta de vender? Mas este daqui, simplesmente apontou para a frente da loja dizendo:
- Os preços estão no folder ali. – O telefone tocava insistente.
Carol vasculhou a frente da loja com o olhar, mas não encontrou o tal do folder. – Onde?
Apressado e impaciente, o homem pegou o informativo em uma pequena estante, entregando-o a Carol.
Enquanto falava ao telefone – havia um problema com uma entrega – Carol procurava o preço do colchão que queria em vão. Eram pelo menos seis marcas com densidades diferentes e quatro tamanhos cada uma. Havia várias tabelas, mas o seu colchão definitivamente não estava lá. Ela esperou até o homem terminasse o telefonema. Mas ele dirigiu-se ao estoque da loja, na parte de trás, sem lhe dar satisfação. Então, ela aproximou-se da entrada do estoque e, quando viu que o homem voltava apressado, deu três passos para trás e pediu gentilmente:
- Desculpe, mas não encontrei o preço do colchão que quero. O senhor poderia indicá-lo para mim, por favor?
Foi então que a ordem do universo tropeçou. Crianças morriam vítimas de violência doméstica e câncer. Bons velhinhos também. O seguro saúde não cobre os tratamentos. A cobrança dos impostos no Brasil. A lentidão do trânsito. A traição dos amigos. Dez dias sem fumar. Antes da morte certa, a incerteza do futuro. A ingratidão dos filhos e, pior, dos funcionários. A programação da TV aberta. Três comprimidos de Frontal por dia. A morte precoce do amor de uma vida. As atrocidades da injustiça social, desculpando bandidos em cada esquina. O sistema carcerário. O sistema tributário. O judiciário. O executivo. A falta de vergonha das alianças e conchavos. Quinze dias sem beber. A corrupção. A sonegação. A indiferença e a ignorância dos cidadãos, inclusive eu, inclusive eu... Com a magra bondade vagando insone a custa de barbitúricos, nenhum colchão acolheria o sono dos justos, pelo menos, não nesta noite.
E, avançando para cima dela, o homem vociferou:
- SE VOCÊ PUDER ESPERAR EU ACABAR MEU TELEFONEMA, EU TE FALO O PREÇO!!!!!
Completamente aturdida por três segundos, com os olhos muito arregalados, Carol mirou o semblante raivoso do homem que se preparava para lhe dar as costas de novo - o problema da entrega persistia ao telefone – quando a indignação dela finalmente suplantou a surpresa, fazendo-a mover-se mais rápido em direção à mesa de trabalho. Sem desviar dos olhos do homem, ela colocou o folder com firmeza sobre a escrivaninha e estava a um passo de retirar-se sem dizer mais nada quando o homem gritou-lhe outra vez:
- É, E VAI EMBORA QUE EU NÃO VOU TE ATENDER MESMO!
Em um flash, como aqueles que as pessoas dizem ter nas experiências de quase-morte, Carol viu enumeradas todas as regras de todos os cursos de atendimento ao cliente que já tinha feito e que hoje ministrava aos funcionários do banco. Era inevitável, a suprema indignação dela e a inexplicável ignorância dele teriam de travar combate no ringue acolchoado.
- O senhor é o proprietário? – perguntou ela sem mudar alteração na voz. Seu autocontrole era uma de suas grandes qualidades profissionais. Quando clientes furiosos adentravam a agência, era sempre ela que atendia. Até no último assalto, tinha sido ela a interlocutora dos criminosos!
- SIM, SOU EU MESMO!! POR QUÊ?
- Puxa, é mesmo? Tratando mal seus clientes deste jeito, o senhor vai falir.
Neste momento, ambos notam uma senhora de uns 80 anos, muito pasma e acuada, observando a situação. Ela é uma antiga cliente e o homem, incapaz de resolver por si o problema da entrega e agora o circo armado, covardemente, a fisga para dentro da situação.
- Trato bem os cliente como Dona Amelia! Não é, Dona Amelia? Boa tarde, como vai a senhora? – pergunta ele com uma gentileza guardada como um ás na manga.
Dona Amelia está um tanto confusa e murmura qualquer coisa inaudível. O homem continua provando a ela que é muito gentil.
- Venha sentar-se aqui, Dona Amelia, que ela já está indo e eu vou lhe atender, - diz com doçura de aspartame. Dona Amelia caminha trêmula até a cadeira ao lado da escrivaninha e senta-se com o auxílio exagerado do homem. O triângulo está formado.
Carol não vê nem ameaça, nem possível aliança na frágil Dona Amelia e diz ao homem decidida.
- Vou depois que o senhor me pedir desculpas.
Em milésimos de segundo, o homem completa sua transformação em animal raivoso e avança para Carol:
- EEEEU TE PEDIR DESCULPAS?!!! NUNCA QUE EU VOU TE PEDIR DESCULPAS!!!
Perdigotos resvalam em seu cabelo, mas Carol não recua nem um passo sequer:
- Então, eu não vou embora.
Dona Amelia timidamente anuncia:
- Eu vou embora e volto outra hora...
- De jeito nenhum, Dona Amelia, eu vou atendê-la agora mesmo. Ela se quiser que fique aí. – e, dizendo isto, senta-se para conversar com Dona Amelia. – A senhora veio saber sobre o sofá-cama, não é?
Carol se admira com a agilidade transformacional do homem e resolve fazer uma experiência. É certo que sua motivação não é a mera curiosidade científica: jamais admitiria ser ignorada no meio de um conflito. Então, ela pega o folder que havia depositado sobre a mesa e o rasga ao meio bem na cara do homem, que se levanta agora um predador raivoso e ferido e, arrancando-o das mãos dela, está prestes a agredi-la fisicamente quando vislumbra a expressão perplexa de Dona Amelia. Sua violência parcamente contida emerge em um rosnado bestial entre as presas:
- VOCÊ ESTÁ ME PROVOCAAAANDO!!! – e, pedindo auxílio, vira-se choroso para Dona Amelia – A senhora está vendo como ela está me provocando?
A velhinha com os olhos desbotados e a voz sumida diz:
- Estou vendo. Por que você está provocando ele?
Carol não se apieda da coitada, afinal, que casa de loucos era aquela em que se destratava brutalmente uma pessoa que veio comprar um colchão?
- Porque por nada ele está gritando comigo, uma cliente que veio comprar um colchão, e no mínimo, me deve desculpas por isso.
Recuperando um pouco do controle o homem grita:
- VOCÊ VEIO AQUI FAZER ESCANDALO POR QUÊ?!!!
Carol começa a achar a situação, de tão absurda, um tanto cômica e devolve a pergunta com a maior tranquilidade:
- Eu vim só comprar um colchão. Me diga, quem é que está aos berros aqui?
O homem perde novamente o controle:
- EU VOU CHAMAR A POLÍCIA! – e pega o telefone.
Carol não se intimida:
- Chame mesmo que isto já virou caso de polícia. Assim eu faço um B.O. e as coisas ficam esclarecidas.
Mesmo em meio ao seu frenesi neurológico o homem percebe que chamar a polícia foi uma péssima idéia. (Talvez ele tivesse antecedentes criminais.) Ele está prestes a desabar quando Dona Amelia percebe seu estado e zanga-se com Carol:
- Olha o que você está fazendo com ele... Vá embora! – ela tenta dizer com voz de comando.
Carol não tem mesmo por que se condoer com a aliada do homem e responde-lhe como se estivesse citando uma regra óbvia:
- Vou embora assim que ele me pedir desculpas.
Dona Amelia também está abalada e fica muito pálida. O homem corre ao depósito para pegar-lhe um copo d’água e fala com uma meiguice inimaginável, - Fique calma, Dona Amelia, ela já vai. – E virando-se para Carol pronuncia colericamente:
- ELA ESTÁ PASSANDO MAL POR SUA CAUSA!! VÁ EMBORA!!!
- Vá embora... – geme dona Amelia.
Carol diz a ambos com a mesma placidez de sempre:
- Vou embora depois das desculpas.
- Pare de provocar – exige e, virando-se para o homem, - Ela é descompensada, - conclui abatida, tentando consolá-lo.
Carol agora está intrigada com a complacência de Dona Amelia para com aquele homem e lhe pergunta:
- A senhora acha que isto está certo? Uma pessoa entra para perguntar o preço de um colchão e este homem começa a destratá-la? Eu não estou acostumada com que gritem comigo. Não aceito este tratamento!
- Mas eu o conheço há 30 anos! Ele é um bom homem...
- Obrigado, Dona Amelia! – diz ele comovido.
- Que sorte a minha! Eu o conheço a cinco minutos e só vi coisa ruim! – completa Carol já cansada da história dos comparsas.
Sempre gritando, mesmo que não mais com a mesma energia, o homem capitula lutando contra seu instinto de animal ferido:
- É DESCULPAS QUE VOCÊ QUER PARA IR EMBORA? É, É SÓ ISSO?!
- Sim, só isso, - diz Carol resoluta.
O homem respira fundo e senta-se. Põe uma máscara furtada da simpatia e sorri falsamente para Carol. Cínico é também o tom de sua voz, mas por fim ele diz com o esforço de quem engole um pequi inteiro:
- Me desculpe, meu amor.
Sem sorrir, mas sempre lhe fitando os olhos, Carol diz triunfante:
- Está desculpado! – e vira-se para ir embora pensando aliviada que a história poderia ter se alongado mais, quando a senhorinha repete para ser ouvida, - Ela é dessas pessoas descompensadas...
Carol está definitivamente cheia de tanta estupidez e diz com a certeza de um mandamento sagrado:
- Não senhora, sou uma pessoa que exige ser tratada com dignidade. Se a senhora não sabe o que isto quer dizer, eu sinto muito – e, por fim, saiu da loja.
No caminho para casa, Carol, que estava feliz por ter feito o homem pedir desculpas, pensou sobre todas as razões que poderia haver para ele ter agido daquela forma. Mas, para ela, nenhuma tragédia pessoal ou profissional justificava a agressão, a teimosia, a total falta de controle de que havia sido objeto. Talvez o mundo fosse mesmo um lugar para ser subvertido em caos, aos tropeços, e ela era apenas um degrau mais alto.
Naquela noite, Carol foi ao seu restaurante preferido com seu namorado, que acabara de chegar de viagem, e juntos adormeceram abraçados no sofá, um lugar onde a desordem do mundo e a loucura das pessoas não tinha espaço nenhum.
Conto de Chris Ritchie