Seguidores

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A PROMETIDA



Quase no altar, Edu se desvencilhou da noiva contadora. As semanas que antecederam a decisão foram de angústia e sem-vergonhice – ele queria provar para si mesmo que não merecia moça tão boa, coisa que, é claro, não era verdade, mas, enfim, a mente faz o que é preciso para o sujeito sobreviver. Meio afogado por tantas lágrimas da ex-noiva, porém sem culpa, ele chegou moço solteiro a Arraial d’Ajuda em uma manhã de sol e promessa de recomeço. Era preciso sumir por uns tempos, até que todos estivessem recompostos do choque. – Não pode levar mais que uns meses... -, Edu ponderou com esperança antes de partir.

A vila era o paraíso de Alá prometido aos suicidas da causa! Muito mar verde-azul, muita praia para lavar a alma, brasileiras e estrangeiras, virgens ou nem tanto, caminhavam pelas ruas de terra em vestidos despretensiosos que mostravam mais do que escondiam, um deleite para os olhos e a imaginação dos homens. E Edu não era diferente: mesmo sem saber ainda, porque imaginava que queria dar um tempo com as mulheres, ele investiria seus esforços e o dinheiro da venda do apartamento do ex-casal para agradar as moças bonitas, as simpáticas e mais todas as que gostassem dele, mas não para casar.

Edu tinha uma reserva na pousada Canto Azul, um lugarzinho modesto com paredes pintadas de um azul caiado quase triste não fosse a exuberância das plantas decorativas. - Um microcosmo da Mata Atlântica! Dá até para ouvir os pássaros e saguis... Meu lar nos próximos três meses -, pensou satirizando a própria escolha.

Clara, a dona do Canto Azul, era uma mulher de meia-idade morena e voluptuosa, falante na medida para ser simpática, mas sem conversa besta. – Olha, seu Eduardo, como o senhor deve ter visto no site, esse é o quarto para estadia longa - disse abrindo a porta do último quarto do corredor. - Troco os lençóis e as toalhas a cada semana, para preservar o meio-ambiente. Se precisar trocar antes, tem R$ 15 de taxa de preservação – anunciou como se fizesse parte do ativismo ambientalista local e prosseguiu sem esperar comentário ou protesto. – As regras e horários estão aqui atrás da porta.

Clara deu a Edu o pior quarto da pousada na esperança de que ele, apesar de querer pagar adiantado, decidisse ir embora antes do prazo. Ela tinha desconfiança dos hóspedes que vinham com essa ideia de remediar a vida na vila. Na sua experiência, as coisas sempre acabavam em alguma confusão, com casamentos desfeitos, briga de facão e o diabo.

Edu realmente achou o quarto pobrinho e apertado, mas dava para o gasto.  Tinha TV, a cama era boa, o banheiro no corredor limpo. – Com um marzão desses lá fora, vou ficar pouco aqui dentro. Se o chuveiro for quente (ele detestava banho frio) tá valendo! - avaliou consigo.

Os primeiros dias foram de reconhecimento: o melhor canto da praia, a melhor moqueca, o melhor bar, a melhor prática de capoeira, os músicos, os boêmios úteis à arte popular. Em três semanas, Edu se entrosara com os personagens locais e já fazia parte da vida na vila. Alguns amigos foram visitá-lo, levando as notícias que ele recusava receber da família e da ex-noiva, que estava em depressão porque não conseguia dar a volta por cima, esquecer o canalha filho da puta imbecil que a deixou quase no altar. A conversa para continuar tinha que ser sobre o que vamos fazer hoje.

E hoje sempre tinha café da manhã com banana da terra, tapioca, mergulho, sair de barco com Tonhão, o melhor pescador, almoçar uma moqueca ou peixe na brasa, cerveja gelada, pinga para fechar, jogar bola, até anoitecer, conversa na praia. Às vezes tinha convite para jantar, dançar, cantar, jogar, transar. Dormir junto, não – todas sabiam que ele não aceitava.

No dia em que a cota do plano de fuga acabou, Edu recebeu proposta de Clara para ficar mais uma semana sem custo, refeições inclusas. - Você pode fazer um site mais bonito pra pousada e me trazer um peixe ou dois - ela propôs sem nove horas. – Vai se despedindo do povo aos poucos...

Era irrecusável. O que o esperava em São Paulo era a casa da mãe, dias de visitas, críticas, dinâmicas, entrevistas e, com alguma sorte, um emprego ao fim de tudo. Edu não tinha certeza de que fosse isso que desejasse de fato, mas, como não havia outra coisa além dos hojes na vila e o sonho de ter um barco, ele voltaria a São Paulo para juntar dinheiro e montar um negócio no litoral norte.

Antes de partir, o paulista ganhou três festas de despedida e presentes dos amigos que fez nos intensos três meses e meio em Arraial. De Clara recebeu a gravaçãozinha dos pássaros da Mata, para lembrar do Canto Azul, senão dela própria. Ganhou do Tonhão o anzol da primeira cavala que pescou, um peixão de quase 30 quilos que garantiu o almoço de sábado e domingo de toda família do Tonhão, sendo ele o convidado de honra! Laura lhe deu o beijo que ele esperou desde o primeiro dia em que a conheceu na padaria, assando e vendendo pão. – Nunca me passou pela cabeça ideia de mulher padeira, ainda mais gostosa assim. – Passou a comer mais pão, mas sem manteiga. E assim, foi juntando presentes e lembranças até encher mais uma mala e partiu com todos os nomes e endereços na cabeça, alguns telefones também, que esqueceria quando fosse hora.

Chegou ao aeroporto de Porto Seguro duas horas antes do voo. Edu já estava morrendo de fome, uma coisa que havia tempo não sentia – como tinha ficado mal acostumado às comidinhas na mão! E se tinha alguma coisa que deixava Edu menos simpático era fome. Era algo assim como a transformação do paciente e gentil Dr. David Banner no incrível Hulk, mas em câmara mais lenta, de um modo que a olho nu não se notava. E, para evitar o mesmo despertar desconcertante do cientista despido e confuso, Edu, como o Dr. Banner, fazia de tudo para não se transformar. Foi logo ao primeiro quiosque que encontrou e pediu ao atendente, - Amigo, me vê uma coxinha, por favor.

O rapaz, que conversava com duas moças debruçado sobre o balcão, respondeu sem pressa e sem olhar para o freguês aflito, - Só um minutinho. - O minutinho passou com mais três e nada. Edu pediu de novo, - Ô, amigo, a minha coxinha... – De novo o moço respondeu arrastado, - Só um minutinho -, e gargalhou com as moças. Os olhos castanhos de Edu já estavam verdes e ele insistiu para o bem de todos, - Amigo, faz mais de cinco minutos que estou esperando a coxinha... - O rapaz voltou-se irritado, porém moroso, - Oxe, esse povo de São Paulo é tudo estressado - e riu com um desdém que Edu deixou passar para não piorar a situação. – Diga, moço, que coxinha o senhor quer? - Edu animou-se e disparou tão gentil quanto podia com as pontas das unhas já esverdeadas indicando a maior coxinha do refratário, - Pode ser esta daqui!

- Essa pode não, moço. Já tá prometida a outro -, responde falando mole.
- Tá. Pode ser essa daqui então -, diz Edu com o último fio de paciência na voz.
- Oxe, essa também tá prometida! - ele diz lânguido e pisca para as moças.

Quase espumando verde, Edu dá o ultimato:

- Se esta outra coxinha estiver prometida, seu palhaço, eu vou te encher de porrada! –avisa ao apontar a terceira e derradeira coxinha.

- Também es... – e a frase se interrompeu com o primeiro soco, que acertou o ar porque o rapaz tinha ficado esperto de repente, pulando para trás como um gato. As moças gritam. Edu se atira por cima do balcão derrubando os potes de pimenta, ketchup e mostarda. Avança para o rapaz com os punhos brancos (estariam verdes não fosse a força com que os cerrava) e cego de raiva resvala mais um golpe no palhaço imberbe. O quiosque torna-se um ringue e atrai os passantes. Pode-se ouvir alguém comentar: - Sabia que esse folgado ia acabar levando uma! - Os combatentes se encaram com fúria. Edu, que não é de briga apesar da fome transmutá-lo, acerta o atendente uma vez.  Ele grita por socorro, - Seu Ramos, seu Ramos, acuda aqui!!! É ladrão assassino!! – exagera o rapaz já com o olho inchando roxo. Por sorte, um freguês que comia empadas no balcão e testemunhara a afronta desde o início, avisa Edu: - SAI FORA que é a polícia, cara! SAI FORA AGORA!!!

A polícia chega e o tumulto é desfeito, mas não sem antes Edu enfiar duas coxinhas no bolso do casaco, saltar para fora do quiosque e misturar-se à multidão atarantada. Com a adrenalina berrando no sangue, Edu entra na livraria do aeroporto e abocanha a primeira prometida, sentindo o prazer da vitória. Com coragem, admitiu para si mesmo que estava mudado. Para melhor.

terça-feira, 24 de julho de 2012

DÍVIDA



DÍVIDA
Jean Paul desligou o telefone com um gesto lento e pesado, prenúncio de uma fase sombria em que lhe faltariam até os palavrões tão característicos de sua expressão efusiva e sincera, muitas vezes para melhorar a verdade, como acontece com os românticos incuráveis.  

Recém-divorciado, devendo três meses de aluguel, estourado o limite do cheque especial, sem cara para pedir mais dinheiro emprestado aos amigos ou à família e com caráter demais para esperar que o proprietário entrasse com ação de despejo, a partir daquele momento Jean Paul podia se considerar um autêntico sem-teto. 

Vasculhando a lista de alternativas que incluíam o viaduto da Praça XV ou da Penha, Jean Paul decidiu pedir emprestada ao pai a casinha no ermo sertão da estrada de Teresópolis.  Por alguns meses teria de viver longe dos palcos e da esbórnia carioca que tanto o inspirava. Com certeza a experiência o tornaria mais saudável, purificando corpo e espírito tão expostos aos excessos da diversão extrema.  

E foi com este pensamento do otimismo ingênuo que sempre lhe abrira tantas portas que Jean Paul também decidiu recorrer às forças ocultas, outras velhas conhecidas de horas de trabalho voluntário no Centro das Almas Aflitas, curando padecimentos físicos e encostos espirituais com diplomacia, fé e abnegação. Depois, como recompensa por seu talento criativo e dedicação, vieram a fama e o esquecimento de muitas regras do divino. 

Jean Paul acreditava, no entanto, que a regra primordial, a do perdão, não lhe faltaria agora. O filho pródigo merece ser perdoado porque com ele o equilíbrio natural-sobrenatural é restabelecido e expandido para todas as dimensões em que habitam as almas, com ele se fortalece o reino, o regente e os regidos. A presente situação era prova de que este era o seu papel no plano maior. 

Primeiro ligou para o pai, que também entendeu a mudança como oportunidade de reflexão para o filho. Depois acertou com um amigo para o domingo à noite o transporte dos poucos objetos que não havia vendido e, por fim, visitou o Centro.  

Como o pai, os ex-colegas se mostraram receptivos e prontos a ajudar. - Será que a coisa está mais feia do que imagino? - pensou intrigado e assustado estaria se não tivesse fé. Mas, fato foi que o espírito que lhe falou pela boca de Pai Oxóssi mandou que ele subisse o morro naquela mesma noite para despachar com aquele que não era nem homem e nem mulher e, felizmente, deu-lhe um endereço, uma lanterna e dinheiro para a condução. - Vai sem medo que ele tem a solução pra tua hora de aflição, meu filho -, sussurrou o médium. 

Jean Paul agradeceu a instrução e foi confiante ao encontro do desconhecido. O taxista o deixou no pé do morro sem iluminação. - Só dá pra ir até aqui, amigo. Daqui pra cima é só picada. Tu tem lanterna? Bom, vai precisar. É um breu só nessa mata. Valeu o troco. Boa sorte! –, o homem se despediu aliviado por partir. 

Após 40 minutos de subida, Jean Paul bateu palmas à porta de treliça de um barraco. Mesmo fechada, ela só filtrava a luz que emanava do interior do cubículo, iluminado os últimos minutos da caminhada, quando as pilhas da lanterna já haviam se acabado.

- Vai entrando, a casa é sua! – convidou aquele... aquela pessoa que já o esperava. – Num precisa falar, não, mas tem que olhar nos olhos e me dá a mão.  

Jean Paul queria se explicar, mas a Pessoa levou o dedo aos lábios pedindo silêncio e sacudiu a cabeça segurando-lhe as duas mãos na sua, enquanto o benzia com a outra. Aquilo durou três minutos, duas horas? Não dava para saber.  - Agora vai pra casa dormir que os mensageiros já estão levando a sua resposta – ordenou a Pessoa. 

Às nove horas do sábado, o telefone tocou insistente. Uma voz feminina muito animada tagarelava zoando a cabeça de Jean Paul. - É você que está procurando alguém para dividir o apê? Então, posso ir agora?  É que estou com pressa para resolver minha mudança. Tenho que viajar amanhã. Posso ir, então? Falou! Na verdade, já estou aqui embaixo. subindo em dez minutos porque sei que te acordei.  

- Que demais o teu espaço, cara! Adorei! Vou ficar!

- Acho que você não entendeu. Eu já entreguei o apartamento. Estou saindo amanhã. Você tem que falar com o proprietário.

- Ah, não faz isso não! Não tenho como pagar sozinha, ver contrato, essa merda toda... e a localização daqui é perfeita pra mim! Olha só, posso pagar três meses adiantados e se você não fizer questão da suíte, aumento em 30% o que você tá pedindo. Topa? 

Jean Paul topou. 

- Agora vamos comemorar! Vi uma padaria aqui perto com um café da manhã caprichado. Vamos lá?
- Querida, você não está entendendo que eu não tenho mesmo dinheiro nenhum?
- Ah, deixa disso, Jean! Posso te chamar de Jean, né? Você é meu convidado! Afinal, te tirei da cama.
- Não vou poder retribuir tão cedo.
- Não precisa. Vamos lá?

Mal haviam entrado na padaria, um famoso produtor musical que há séculos ficara de dar resposta sobre um contrato com Jean Paul o saúda calorosamente, monopolizando a atenção de todos. - Meu querido, que maravilha te encontrar aqui hoje!! Quero retomar aquele contrato do álbum com 12 faixas. pronto pra gravar? Segunda-feira, então, passa na gravadora pra assinar. Fechado? Agora, dá licença que vou levar as crianças à praia. Bon appetit, Jean Paul! Tchau, gata.

A resposta veio tão rápido que Jean Paul só relacionou os acontecimentos depois de comer. - Puta que o pariu! A Pessoa era mesmo do caralho! - , a abundância tinha voltado à boca e ao bolso de Jean Paul. E a primeira coisa a fazer era pagar a divina eficiência. Voltou à cabana, mas não encontrou ninguém. Foi ao Centro, mas lá não constava nenhuma dívida. Relaxou.

 Os anos se sucederam e o sucesso era parte integrante da vida de Jean Paul. Cinco anos após o salvamento, Jean Paul havia comprado um apartamento na Vieira Souto, no Rio de Janeiro, e outro na Alameda Lorena, em São Paulo. Circulava incansável entre os polos culturais do Brasil, compunha semanalmente, fazia shows, era convidado especial nos programas de auditório da TV e, nas baladas, VIP.

Em uma festa de lançamento da coleção primavera-verão da Preta-Porter, ficou amigo de uns franceses muito curiosos sobre a umbanda. Com o maior prazer, Jean Paul se prontificou a levá-los no dia seguinte.

A alegria da comunidade do Centro das Almas Aflitas em vê-lo era só comparável ao agradecimento pela doação mensal que Jean Paul fazia às obras de assistência social do Centro. Ele posava orgulhoso e feliz com as crianças para as fotos dos franceses.

Na hora dos trabalhos, sentaram-se em grupo e Jean Paul explicava aos estrangeiros as falas dos rituais quando, para sua absoluta surpresa, ele foi assinalado pelo médium.

- Ocê, gringo safado, mi devendo tem cinco ano de terra!
- Como assim, estou devendo?! - perguntou absolutamente surpreso.
- Num foi ocê que subiu o morro pra fala cum aqueli qui num é homi nem muié?
- Foi. E se estou devendo, é só falar que eu pago. O que estou devendo?
- Tudo qui a boca comi!
- Tudo que a boca come?! – pensou um instante e concluiu, - É um banquete pro santo!

E Jean Paul passou os três dias seguintes providenciando cestas de frutas, verduras, carnes e doces que acabariam no bico dos pássaros e no bucho dos cães e gatos que pulassem os muros do Centro, todos enviados em missão que durou sete dias e sete noites.

Na sétima noite, Jean Paul sonhou que subia o morro acompanhado pelos animais, que lhe lambiam as mãos, os passarinhos brincando com seu cabelo, bem mais comprido no sonho. Chegando ao cume, no lugar onde estava o barraco, havia uma estátua de figura humana gargalhando. Jean Paul chegou bem perto procurando uma placa que a identificasse, mas só ouviu uma vozinha vindo de dentro do bronze, - Fio, danado! Nunca mais vô tê fomi!

sábado, 7 de julho de 2012

SORTE MINHA


Após um fim de semana agitado, com aniversário e vitória do time, muita gente entrando e saindo, jogando-lhe restos de comida e passando-lhe a mão na cabeça ao se esgueirar pelo corredor apertado, escuro e húmido, passagem dos cubículos no pátio do casarão do século XIX transformado em cortiço pelo proprietário agiota, a cadelinha vira-lata de três meses estranhou o silêncio da manhã e pôs se a ganir às cinco horas.

 Às 5:01, um homem já urrava palavrões e uma mulher berrava ordens de silêncio à cadelinha, mas estas só fizeram aumentar seus protestos. Em meia hora, todos no cortiço estavam acordados discutindo o inconveniente sob os ganidos estridentes do animal e o choro das oito crianças. Adultos mais exaltados queriam dar-lhe um fim.

- Eu falei que ia dar merda pegar esse cachorro – disse o homem dos palavrões.

- Mas, foi tu que gastou todo o dinheiro do presente de aniversário do Maurival! Aí, foi essa a opção que sobrou! – resmungou a mulher, mãe do aniversariante.

- Já vou avisando que se esse bicho da porra não calar a boca vamos ter que dar fim – avisou o morador mais encrenqueiro.

– Tu não manda nada aqui, seu filho da puta! - A mãe estava furiosa.

E quanto mais a discussão caia de nível, mais gritavam a cadelinha e as crianças. O confronto estava a poucos centímetros de se tornar físico quando alguém pisou no filhote. Os ganidos chegaram a um milhão de decibéis e, num misto de terror absoluto e heroísmo inconsciente, Maurival, o suposto dono, temendo pela vida do bichinho, pegou-a no colo e saiu para a rua deixando os berros dos adultos e o choro dos irmãos para trás.

Correu o mais rápido que pôde, gastando todo folego que tinha. Quando parou exausto, não tinha certeza de onde estava e a cachorrinha se debatia tentando escapar para o chão. Amedrontado e sem forças, Maurival não teve como segurá-la mais e ela sumiu em questão de segundos.

O menino achou que fosse chorar, mas, na verdade, ainda não tinha se apegado ao animal, tanto que nem nome ela tinha. E, sendo assim, não pôde chamá-la de volta. Pensou também que se ele não tivesse mais aquele presente de aniversário, poderia ganhar o ‘Campo de Batalha’ que havia pedido. Não se sentiu culpado porque tinha nove anos de experiência em um ambiente totalmente insensível a qualquer causa ou sentimento nobre, já tinha levado muita bordoada e vivido com a falta de itens básicos, como carinho e educação. Além disso, sabia que ela tinha chance de encontrar outro dono.

Para voltar para casa, Maurival foi perguntando aos passantes se estava perto da Lanchonete Halua, muito popular e vizinha ao cortiço. Chegou em casa por volta das 7 horas, levou uns tapas e ficou de castigo. A semana começou bem mal para ele, mas pelo menos os adultos haviam parado de brigar e os irmãos, de chorar. Em segredo combinaram de procurar pela cadelinha depois que os pais saíssem para trabalhar.

Sinal vermelho no cruzamento, aguardo na área ensolarada da faixa além dos carros, pensando em como tenho sorte por poder andar de bicicleta em uma segunda-feira tão linda assim.

Distraída, admirando o azul intenso de inverno e poluição no céu, sinto um leve desequilíbrio na bicicleta. Olho para os lados e não vejo ninguém, mas o peso estranho permanece. Olho para baixo e ali está um filhote pretinho apoiando-se no quadro, esperando atenção.

- Oi, neném! Você tá passeando sozinho? – pergunto, fazendo festa para aquela carinha tão simpática.

Em resposta, ele abana o rabo e sai em disparada para o cruzamento. 

- Volta aqui, ...! Volta, ...! – chamo inutilmente, sem saber seu nome. E no segundo em que penso em largar a bicicleta para trazê-lo de volta à calçada e evitar que seja atropelado, ele vai em direção ao carro!  

Apertei os olhos até doerem, recusando-me a testemunhar a cena trágica que acompanharia a batida surda que se seguiu. Mesmo assim, o sangue se esvaindo do corpinho esmagado era o que eu via no asfalto até que os ganidos em movimento me arrancaram deste imaginar horroroso. 

Então, vi o filhote correndo de volta para a calçada e deitando-se todo enroladinho contra o muro, já sob o olhar de um passante que lhe acalmava. 

Uma mulher chegou aos prantos com seu carrinho de compras. – Eu vinha vindo desde lá e vi o coitadinho zanzando sozinho. Ele está perdido! Ah, meu Deus, ele vai morrer?! – perguntou-me em desespero. 

- Parece que ele está bem – afirmou o homem que o observava. 

- Há um veterinário logo ali. Vamos levá-lo para ter certeza – eu disse com uma objetividade absurda diante de minha comoção. 

- Deixa que eu pago as despesas! – a mulher estava decidida a salvar o bichinho, - mas não posso pegá-lo por causa deste maldito carrinho! Ah, meu deus, ele vai morrer... – dizia entre soluços. 

- Não vai, não! Leva minha bike que eu pego ele – decidi, entregando minha bicicleta para o homem e carregando o cachorro sem receio de ser mordida.  

Caminhamos como uma equipe de resgate até o veterinário, que o examinou podendo  constatar que era uma fêmea de aproximadamente três meses e estava bem, mas deveria ficar em observação até as 15 horas. 

Aliviada, a mulher chorou ainda mais e pagou a consulta com prazer enquanto eu considerava ficar com a cadelinha que chamei de Sorte Minha.

terça-feira, 3 de julho de 2012

OS CONDENADOS


Cida desceu a rua esburacada correndo, apressada para pedir à irmã que lhe emprestasse o dinheiro da condução. Corria o mais rápido possível porque estava bem atrasada, mas também porque queria chegar sem fôlego para ter a desculpa de só pedir o dinheiro – quanto menos falasse, menos ouviria – e sairia correndo novamente e pegaria o primeiro ônibus para ficar longe das vistas de Auxi, a irmã auxiliadora, sempre tão pontual, organizada, previsível e inflexível como dominó.

Cida sabia que Auxi a repreenderia 1. por não ter o dinheiro da condução, que a patroa havia adiantado; 2. por tê-lo gastado com bobagem (os esmaltes cintilantes); 3. por estar atrasada; e  4. por domingo ter dançado até tarde no forró da Rua da Abolição (como é que ela sabia?!).
Havia uma certa provocação à irmã em tudo que Cida fazia. Pelo menos, era o que diziam as pessoas do bairro, era o que a família dizia e essa ideia de tão repetida se tornou uma verdade sobre ela, mas não para ela, que a refutava categoricamente com um argumento corajoso:
- Quem vê as coisa assim tem veneno no coração e na língua! Eu gosto de me divertir e me divirto dançando. Auxi gosta de ir no culto. O mundo, o bairro e a família têm lugar pras duas!
O marido de Auxi às vezes achava que Cida abusava da boa vontade da irmã. Porém, na verdade, Auxi não lhe negava nada porque ela era uma missão evangélica e a certeza de fazê-la mais crente em Jesus Cristo, mais casta em seu guarda-roupa e mais pura em suas ações era tão absoluta que chegava a sonhar com este testemunho diante dos irmãos no templo.
Cida tomava caipirinha de canudinho, seduzia sem querer homens noivos e casados, meninos adolescentes e era a maior fonte de inveja das mulheres da vila.
- Ela tem o diabo no corpo! Precisa de exorcismo e batismo! -, diziam as mais exaltadas.
Auxi acreditava na existência do diabo e também que ele era o semeador da inveja e outros pecados. No entanto, pelo tanto que orava pela irmã, sabia que ele estava muito longe de Cida. Ela era cheia de energia, gostava de conversar e de dançar, mas também dava duro nas faxinas em casa de família e escritórios. Era tanta sua eficiência que nunca faltavam indicações de trabalho e Cida passava os contatos para todas as mulheres do bairro que estivessem procurando serviço, mesmo para aquelas que falavam mal dela.
Auxi sofria mais que Cida com a maledicência e achava que a única solução para a irmã seria mudar de bairro, ou até de cidade. Cida não estava nem aí: ela tinha sorte, sucesso e estava de bem com a vida. Auxi também a via assim e no fundo não desejava que Deus mudasse nada nela – talvez por isso as orações não fizessem efeito para mudança, apenas para a proteção...
 Já no ônibus, Cida conversava com uma colega sobre o trânsito e como chegariam cansadas no serviço depois de duas horas em pé aos solavancos.
- Oh, minha linda, senta aqui que eu já vou descer e quero te dar o meu lugar. – Chamou um moço sentado no fundo, que desde que Cida entrara não tinha tirado os olhos dela.
A colega deu uma risadinha e um empurrãozinho, cochichando:
- Vai lá, danada, que ele gostou de ti!
- Quer saber, vou mesmo porque minhas perna tão que tão!
- Vem, morena, vem sentar aqui! -, ele gritou acenando.
Cida espremeu-se pelo corredor abarrotado e chegando diante do moço tão gentil teve pena. Ele usava bota corretiva para perna mais curta. Ele notou seu embaraço e, experiente na situação, logo foi dizendo:
- Prazer, sou o Capeta das pelada da Vila Maria. Acredita?
- Acho que não, moço -, respondeu sem graça porque não mentia muito bem. Ela já conhecia a fama do moço que era o capeta com a bola, mas nunca o tinha visto.
- Então, vem me ver jogar no domingo que vem às 11 horas. Você vai ser minha convidada de honra na arquibancada da diretoria.
- E pelada de vila lá tem isso? -, perguntou com fingido desdém.
- Vai lá ver, linda.
- Meu nome é Cida.
- Vai lá ver, linda Cida.
Cida sorriu quase encabulada, sem responder. Antes de descer, o moço olhou-a intensamente, repetindo:
- Vai lá me ver: Jair, camisa 10, não dá pra errar.
Cida sustentou a intensidade do olhar e surpreendeu-se com a agilidade de Jair para descer do ônibus. Notou também que ele ficou olhando até outro ônibus entrar no corredor e bloquear sua visão.
A semana passou e Cida continuava na dúvida sobre aceitar o convite de Jair. Estava curiosa para vê-lo jogar com aquela perna mais curta, mas não queria confusão. “Vai que ele é casado... Deus me livre!” Mesmo sabendo a resposta, perguntou a opinião de Auxi, que se apavorou:

- Tu é doida de pensar em ver Capeta jogar! Vem pro culto comigo que a curiosidade passa.

Cida foi, mesmo preferindo missa. Mas, a curiosidade não passou e ela foi ao jogo com a colega do ônibus como quem não quer nada. Chegaram atrasadas por causa do pastor exaltado que não c parava de falar, porém discretíssima, sem salto nem maquiagem, e sentaram-se nos primeiros dois lugares livres que encontraram na pequena arquibancada improvisada com cadeiras dobráveis de bar. Do lado oposto erguia-se a área VIP: poltronas plásticas sobre um tablado com geladeiras de isopor contendo cerveja, refrigerante e até suco natural!

O jogo acabara de começar e Jair já a havia notado, mas disfarçou sua satisfação e nem lhe acenou, fingindo-se muito concentrado. “Este é o melhor jogo da minha vida!”, pensou.

E foi. Jair marcou dois gols, que deram a vitória ao Quadra Dez. Mais tarde, no churrasco de comemoração, ele foi aclamado o melhor jogador da história do time, com direito a brinde e desfile no ombro dos companheiros embriagados.

Envaidecido com as homenagens e, principalmente, com a presença de Cida, Jair atribuiu a inspiração dos gols a ela e os dois passaram a tarde em flerte adolescente. A colega não ficou na mão, recebendo atenções do goleiro reserva, que também era o mestre churrasqueiro.
À noitinha, Jair ofereceu-se para acompanhar Cida em casa.
- Tu joga mesmo bem, seu Capeta.
- Foi tu que me fez jogar assim – nunca tinha jogado tão bem! Acho que tu vai ter que vim a todos os jogo...
- Imagina só! O talento é teu homem, tu podia ser profissional se... -, e parou envergonhada com a frase inconveniente, - Desculpa. Não quis ofender.
- Não, não se desculpa, não, linda. Não me ofendeu. Nasci assim. É assim que ando, corro, jogo melhor que os outro com perna do mesmo tamanho e tá bom. Faz tempo que me acostumei com o jeito do olhar dos outro e as coisa boba que algumas pessoa dizem.
“Eu também!”, Cida pensou, “só que por outros motivo...”
- Imagino que é como ser famoso, só que sem as glória da fama, - Jair continuou, - mas eu tenho do meu lado a maior glória de todas e aqui caminhando com ela – finalizou olhando-a com malícia.

Cida parou de andar e eles se beijaram com paixão. Mesmo antes do abraço ousado, ela já sentiu um calor intenso envolvendo seu corpo ao mesmo tempo em que um frio na barriga a fazia se arrepiar toda. Jair tinha um gosto bom de doce de festa chique, aqueles com caramelo vidrado. “Isto sim é um beijo de verdade!”, pensou feliz da vida.

Depois de alguns passeios e jogos, beijos e amassos, estava claro para ambos que deveriam ficar juntos. Casaram-se em cerimônia civil e religiosa apenas para as famílias, conforme a vontade de Cida para agradar Auxi. Mas, após tanta discrição, os noivos receberam a vila toda na maior festança de que já se teve notícia por lá. Eles queriam e fizeram uma festa do tamanho de sua felicidade.

No dia seguinte, viajariam em lua de mel para Santos. Jair alugou um sedan e as amigas o enfeitaram com flores, latinhas, frases românticas e camisinhas comestíveis no porta-luvas.

Antes de pegarem a estrada, Jair estacionou próximo a uma casinha muito velha e modesta, com uma muretinha esmorecida e jardim abandonado. Jair tirou uma caixinha do bolso do paletó e Cida, que já havia ganhado anel de noivado e casamento, não fazia ideia do que poderia ser agora. Jair, então, anunciou solene:

- Este aqui é o meu ex-voto mais importante -, disse entregando a caixa para Cida.

Ela abriu com delicadeza e ao ver o que era sussurrou lentamente:

- Sapatinhos de bebê... Não entendi.

- Vem aqui fora comigo um instante -, saiu do carro e foi abrir a porta para ela, mas como não estava acostumada com tanta gentileza, já tinha saído quando ele chegou do outro lado. Deram-se as mãos e caminharam até o casebre.  Jair colocou os sapatinhos na mureta e explicou: 

- É uma velha história que termina com você, minha linda. Quando eu nasci, o médico disse pra minha mãe que eu provavelmente nunca ia andar, que ia ficar deformado conforme crescesse, que não tinha tratamento pro meu caso.

- Que horror! Isso não se diz pra mãe nenhuma! – exclamou Cida comovida com a história do marido.

- Pois é, a pobrezinha voltou pra casa - essa casinha aí - e chorou dois dia sem parar. No terceiro, ela decidiu que eu ia andar até de bicicleta – e andei mesmo - que ia jogar bola e ia fazer bonito, ia namorar e me casar com uma moça linda e boa de tudo – você! – e ia ter muita coragem e ser feliz com a graça de São Cosme e São Damião.
- E ela conseguiu, meu amor! Você é o homem mais corajoso, mais homem que eu já conheci. Tua mãe devia ser muito forte, dos santo forte.
- Era mesmo. Ela fez promessa pros santinho de dar doce para as criança e bolo de chocolate no dia deles, de fazer sapatinho para todos os bebê que conhecesse todos os ano e também pras criança órfã– ela era muito boa no tricô, fazia até três sapatinho por noite, depois de trabalhar o dia todo na cozinha industrial. Minha mãe cumpriu a promessa e, antes de morrer, pediu para mim trazer aqui com minha mulher esse último sapatinho que ela fez, que os santinho ia abençoar para os nosso filho - , Jair terminou emocionado, deixando a lembrança da dedicação da mãe e dos bolos de chocolate invadirem sua intimidade de recém-casado.
- Você já tá pensando em filhos, é? – Cida perguntou brincando para tirá-lo do devaneio nostálgico.
A ideia do sexo foi a primeiro que lhe veio à cabeça e o fez rir.

- Ainda, não, minha linda. A gente tem muito que passear! – e puxando-a pela cintura disse em um sussurro de galã latino - E começa agora!


sexta-feira, 11 de maio de 2012

SÓCRATES NA ANA ROSA



 - E se tudo em que você acreditasse não fosse verdade?

- Como assim?

- Sua mãe, por exemplo, ela é um amor, faz tudo por você... Não é assim?
- É. E daí?

- Daí que é isso que você acha, que bom. Mas e se não fosse verdade e você não conseguisse enxergar?

- Então, não teria importância. O que vale é a verdade que eu vivo.
- Mas, e se a realidade fosse outra e por não perceber isso você vivesse um sonho, prisioneiro dele?

- Se sou prisioneiro e não sei e vivo bem com isso, que diferença faz?
- Nenhuma. Mas, e se você pudesse viver melhor se acreditasse em outra verdade?

- Então, eu seria outra pessoa.
- E se você for essa outra pessoa que acredita ser você?

- Então, eu devo ser louco. E você quem é?
- Eu sou o cara que te pediu um trocado para inteirar a passagem. Mas, não mude de assunto.  É mais fácil se assumir louco do que covarde, não?

- Sei lá, velho! Mas por que você está me fazendo todas essas perguntas?
- Porque você me perguntou se era mesmo verdade que eu preciso de dinheiro para a passagem.

- Tá certo... Olha, toma aqui R$ 10,00. Agora some!
- Muito obrigado, de verdade!

  

domingo, 11 de março de 2012

LÚCIA SUMIU NUM DOMINGO

Certa manhã de domingo, passeávamos no MASP Tomás e eu. Ele me falava sobre os casos da semana. A ex que encontrara no almoço, os clientes e suas exigências absurdas, aquela droga de filme que ainda estava ocupando uma sala de cinema e já estava na tv por assinatura...

Quase que gostava muito de Tomás. Ele tinha bom gosto, era calmo, inteligente, bem informado - sabia de cor os guias culturais e gastronômicos da cidade -, mas Tomás era muito chato.

Entre um caso e outro, comentava os quadros do acervo permanente: "Que luz!", "Olha esta técnica de pincel!", "Que expressão fascinante!". Quando chegamos ao A Canoa sobre o Epte, Tomás lembrou-se da raia da USP e começou a contar em detalhes um tal treino de corrida que lá fizera. Falou da sola do tênis à sua performance comparada aos demais no grupo - seriam cinco? Mais? Realmente não sei dizer porque o acompanhei só até o segundo.

Depois disso, a boca de Tomás começou a se mover mais devagar. Cada vez mais devagar. E eu sorri displicente. Voltei para o quadro e, ao fixá-lo, notei que a tinta escorria. Pude então ver o primeiro esboço em carvão, encoberto talvez por uma crítica, uma briga ou paixão repentina que fez com que Monet mudasse de ideia.

Sobre o Epte já não estavam as moças na canoa e nem a canoa. Apenas o rio e mais nada além da brisa que o ondulava e a luz do fim de tarde.

Muitos pássaros habitavam as árvores às margens e a esta hora deveriam estar fazendo algazarra, mas o que eu ouvia era o silêncio absoluto.

Um movimento brusco me fez desviar os olhos do quadro. Vejo Tomás um tanto alarmado correndo em direção à saída. Voltou-se umas duas vezes com o celular na mão e percebi que chamava meu nome. Acenei, mas como se não me visse, saiu correndo como se fosse tirar alguém da forca.

Será que tinha enlouquecido de vez? Bem, eu é que não ia sair feito doida atrás dele, ainda mais com o calorão lá fora. Foi então que, divertida com a ideia de deixar o Tomás em apuros, ouvi claramente o chamado do rio e notei que ele esperava uma resposta. "Já estou indo", eu disse tendo certeza de que estava cedendo sem resistência nenhuma a uma sedução que até então desconhecia. Me deixei levar de modo quase frívolo – mas quem em sã consciência resistiria ao fantástico? É lamentável pensar que isto fosse falha de caráter de uma alma fraca, eternamente pecadora e candidata ao inferno a menos que... Mas este lamento não tenho não e, portanto, não vou perder tempo com os limites da compreensão alheia. Isto é lá para professores!

Eu estava cansada das mesmas frases, dos mesmos encantos, pecados e perdões, problemas e soluções, mesmo as criativas. Estava cansada da originalidade pós-moderna, de saber das coisas, de ter respostas para os outros, de ser Lúcia de carne e osso e desejar e sonhar muito e pouco realizar além das tarefas profissionais e domésticas.

Sempre ouvi o quanto capaz eu era e de quanto surpreendia nas mais diversas situações, como enfrentava as dificuldades e as gentes que as causavam, fossem autoridades, chefes ou a síndica. Mas de uns tempos pra cá estes méritos não eram mais suficientes para me segurar contente de mim. Andava blasé, pensando em remédios, férias sem destino e alternativas exóticas como o jardim de areia e a magia negra. A ausência como solução só funciona se você estiver nela – não consegui chegar a este ponto... Não quis mais pensar nos porquês e muito menos em como. Não quis mais ser legal sem querer. O que importava era o presente que eu havia me dado, mesmo que alguém achasse que eu era egoísta e não o merecesse.

Tirei os sapatos para, com muito cuidado, pisar na relva fresca. Há quanto tempo não tinha esta sensação de frescor em tudo! Caminhei lentamente até o rio. Ali me despi sem pudores desnecessários e mergulhei com alegria de criança na piscina.

Na terça-feira, quando a polícia arrombou a porta do apartamento procurando pistas de um suposto sequestro, encontraram na cozinha louça suja de uns dez dias. Havia algo muito errado naquilo! Imagine se a Lúcia ia dormir com uma colherinha de café na pia!

Não dava para explicar. E o que ninguém nunca soube é que aquela louça era de mais de mês. Lúcia há tempos que comia como um beija-flor.

Durante anos foi mistério sem corpo. Mais um caso não resolvido pela polícia. Uma vítima de abdução para alguns, da antimatéria para outros. A história interminável do Tomás nos treinos de longa distância – sua amiga de infância! Ano após ano a homenageava indo ao museu na data de seu desaparecimento – ele foi o último a vê-la com vida e sentia-se culpado por não ter notado nada de estranho. Pouco ajudou nas investigações além de tornar-se o principal suspeito. Jamais se recuperaria deste trauma.

Depois que o Tomás morreu – um ataque cardíaco fulminante -, o pessoal do treino às vezes retomava a história com exageros aqui e ali. Ela tinha se suicidado porque era apaixonada por ele, que nunca notara, e lhe contava sobre namoradas e casos picantes com peripécias sexuais. Tinha se tornado anoréxica porque havia sofrido abusos na infância e nunca havia tratado o assunto. Não se exercitava. Sua vida social era um lixo orgânico. Tomás era o único com quem conversava. Era workaholic. Tinha começado a beber sozinha. A família não tomou conhecimento, pois já tinham problemas demais. Um caso típico de abandono múltiplo.

Mas nada daquilo era verdade e mesmo que fosse, não explicava nunca terem encontrado o corpo. Lúcia desejava desaparecer e começar outra vida, mas desta vez sem planejar como sempre fizera. Naquele domingo no MASP, diante do célebre A Canoa sobre o Epte, ela teve a audácia de sair de cena e recriá-la como desse, com os recursos e as oportunidades que encontrasse.

Ela tomou um táxi até o aeroporto, sacou o dinheiro que podia e com ele comprou uma passagem para o próximo vôo para onde dava. Lá tirou novos documentos, viveu com outra profissão, casou-se, divorciou-se, estudou Psicologia e voltou outra para São Paulo, mais velha, mais sábia e mais bonita, mas só para fazer compras.

Conto de Chris Ritchie

segunda-feira, 5 de março de 2012

ME DESCULPE, MEU AMOR



Quando foi para cama às três horas da manhã a única coisa que Carol queria era dormir até a uma da tarde do dia seguinte, o domingo do bode. Mas, contra todos os planos e expectativas, ela acordou com uma pontada nas costas às 8:23 e, mesmo com todo o sono do mundo, não conseguiu dormir mais com a dor tão aguda.

Assustada com a novidade, ela pensou em buscar socorro junto à mãe, porém logo desistiu do primeiro impulso, porque não estava a fim de aturar sermão – você dorme pouco, não se alimenta direito, trabalha demais, tem uma vida desregrada, está gorda, sua pele... – “o que tinha de errado com a minha pele?”, e dias a fio de acompanhamento telefônico sempre com as mesmas admoestações.

Ir ao pronto-socorro nem lhe passou pela cabeça. Afinal, uma moça saudável de 28 anos tinha mais o que fazer além de aguardar horas para tomar soro na veia e ser mandada para casa com um remedinho qualquer, coisa que Janice, a amiga hipocondríaca do escritório podia fazer com maestria.

E assim, entre um chá calmante e uma aspirina, Carol suportou bravamente sua agonia até às 10h, quando ligou para Janice.

- Que voz horrível é essa? Você tá mal?

- Acordei com uma pontada nas costas que não passa... tá doendo muito. O que eu faço?

- Pera aí, primeiro tenho que descobrir a origem do problema. Você carregou peso?

- Não.

- Malhou demais?

- Não. Você sabe que odeio academia!

- Fez movimentos bruscos, novos e repentinos ontem, hein?

- Não. Fui jantar na casa da Tata e do Marcelo com o Bobi, a Diva e o Tonho. Ficamos conversando até tarde. Foi só.

- Ah, sei, o tal jantar da reconciliação... Deixa eu ver... Há quanto tempo você tem seu colchão?

- Desde que me mudei pra São Paulo, há uns 10 anos. Por quê?

- Grandes chances de ser colchão vencido. Além disso, você engordou de lá pra cá?

- Não vai começar a me encher com isso!

- Você quer que eu te ajude a resolver seu problema? O aumento de peso faz parte do quadro.

- Tá bom... Engordei uns 15 quilos.

- Vou aí te levar um diclofenaco não-esteróide e ver seu colchão. Chego em uma hora.

- Obrigada, amiga! Vou deixar a porta aberta.

Com prazer, Janice correu com a vidinha de domingo de manhã para acudir a amiga. Em 40 minutos já estava lá, com o diclofenato, bolsa termo gel no banho-maria, arrancando os lençóis da cama para averiguar o colchão.

- Olha só pra isso, Carol! Seu colchão parece uma half-pipe!

- Quê?! Puxa, é mesmo... Que vergonha!

- É melhor dormir no chão do que num troço desses! Você pode e precisa de um colchão de rainha! Queen size, daquele branco e alto, igual ao meu.

- Ah, é... legal mesmo. Vou comprar amanhã. Vem comigo?

- Amanhã não posso. Mas hoje posso almoçar e te faço companhia até as quatro, se você quiser.

- Oh, se quero! Tô imprestável! E vou ter que dormir no chão...

- Coitadinha! – E, olhando em volta, comentou - Olha só que bonito... Agora que vi que você pintou a sala de Fendi! Ficou o máximo! Quando foi que mudou?

- Faz uns quatro meses.

- Nossa, faz todo esse tempo que eu não venho aqui?

- É, faz. Desde que você começou a namorar o Dr. Sílvio... – Carol sabia que mesmo que Janice percebesse a discreta queixa no comentário, não se pronunciaria. E por que deveria? Para Carol a amizade estava acima dos pequenos abandonos e ciúmes. E ela era uma mulher independente, generosa e equilibrada. - Sabe quem pintou? Eu mesma! – Também tinha muitos talentos.

- Não?!

Carol e Janice conversaram sobre o namoro com o clínico geral, cozinharam penne al limone, almoçaram com Suavignon Blanc e Carol acabou adormecendo pouco antes das quatro.

Janice ajeitou a amiga no sofá e escreveu um bilhete – “Melhor você dormir no sofá hoje. O almoço estava ótimo, adorei te ver! Dê notícias. Beijo”.

Ao acordar às seis horas, Carol se sentia nova em folha e decidiu sair para tomar um espresso e comprar umas revistas para a leitura de domingo.

Na segunda-feira, acordou ótima mesmo tendo dormido no sofá. De fato, o colchão era o vilão da história e ela trabalhou arduamente em sua agência da Paulista, imaginando como seria gostoso arrumar a cama nova!

No fim do expediente, ela foi direto à loja de colchões próxima a seu apartamento, supondo que assim seria mais fácil levá-lo direto para casa. Não queria esperar prazo de entrega e o diabo. Ia pôr o colchão no carro como desse e, com a ajuda do porteiro, o colocaria na cama.

A loja estava vazia e um homem alto, de cabelos grisalhos e aparência um tanto enxovalhada terminava uma conversa com um outro que saía apressado. Carol caminhou até o interior da loja, cumprimentou o homem grisalho e disse que gostaria de ver um colchão queen size. O homem apontou para dois colchões que estavam encostados na parede com um cartazinho de cartolina informando o preço em até cinco vezes.

- Ah, não. Eu queria daqueles brancos e altos, parecidos com este aqui. – Disse sentando-se no modelo com molas, quando o telefone começou a tocar. O homem pareceu um pouco desconcertado por estar sozinho na loja com uma cliente e o telefone tocando.

- Você quer o de molas. – disse apressado e, voltado-se para atender o telefone, informou-lhe o preço em até cinco vezes.

Carol, que sempre deu prioridade ao cliente presente na agência, não entendeu o preço e pediu que o homem o repetisse. Ele estava claramente atordoado, mas ela pensou que a venda poderia ajudá-lo a ter mais foco. Afinal, que vendedor não gosta de vender? Mas este daqui, simplesmente apontou para a frente da loja dizendo:

- Os preços estão no folder ali. – O telefone tocava insistente.

Carol vasculhou a frente da loja com o olhar, mas não encontrou o tal do folder. – Onde?

Apressado e impaciente, o homem pegou o informativo em uma pequena estante, entregando-o a Carol.

Enquanto falava ao telefone – havia um problema com uma entrega – Carol procurava o preço do colchão que queria em vão. Eram pelo menos seis marcas com densidades diferentes e quatro tamanhos cada uma. Havia várias tabelas, mas o seu colchão definitivamente não estava lá. Ela esperou até o homem terminasse o telefonema. Mas ele dirigiu-se ao estoque da loja, na parte de trás, sem lhe dar satisfação. Então, ela aproximou-se da entrada do estoque e, quando viu que o homem voltava apressado, deu três passos para trás e pediu gentilmente:

- Desculpe, mas não encontrei o preço do colchão que quero. O senhor poderia indicá-lo para mim, por favor?

Foi então que a ordem do universo tropeçou. Crianças morriam vítimas de violência doméstica e câncer. Bons velhinhos também. O seguro saúde não cobre os tratamentos. A cobrança dos impostos no Brasil. A lentidão do trânsito. A traição dos amigos. Dez dias sem fumar. Antes da morte certa, a incerteza do futuro. A ingratidão dos filhos e, pior, dos funcionários. A programação da TV aberta. Três comprimidos de Frontal por dia. A morte precoce do amor de uma vida. As atrocidades da injustiça social, desculpando bandidos em cada esquina. O sistema carcerário. O sistema tributário. O judiciário. O executivo. A falta de vergonha das alianças e conchavos. Quinze dias sem beber. A corrupção. A sonegação. A indiferença e a ignorância dos cidadãos, inclusive eu, inclusive eu... Com a magra bondade vagando insone a custa de barbitúricos, nenhum colchão acolheria o sono dos justos, pelo menos, não nesta noite.

E, avançando para cima dela, o homem vociferou:

- SE VOCÊ PUDER ESPERAR EU ACABAR MEU TELEFONEMA, EU TE FALO O PREÇO!!!!!

Completamente aturdida por três segundos, com os olhos muito arregalados, Carol mirou o semblante raivoso do homem que se preparava para lhe dar as costas de novo - o problema da entrega persistia ao telefone – quando a indignação dela finalmente suplantou a surpresa, fazendo-a mover-se mais rápido em direção à mesa de trabalho. Sem desviar dos olhos do homem, ela colocou o folder com firmeza sobre a escrivaninha e estava a um passo de retirar-se sem dizer mais nada quando o homem gritou-lhe outra vez:

- É, E VAI EMBORA QUE EU NÃO VOU TE ATENDER MESMO!

Em um flash, como aqueles que as pessoas dizem ter nas experiências de quase-morte, Carol viu enumeradas todas as regras de todos os cursos de atendimento ao cliente que já tinha feito e que hoje ministrava aos funcionários do banco. Era inevitável, a suprema indignação dela e a inexplicável ignorância dele teriam de travar combate no ringue acolchoado.

- O senhor é o proprietário? – perguntou ela sem mudar alteração na voz. Seu autocontrole era uma de suas grandes qualidades profissionais. Quando clientes furiosos adentravam a agência, era sempre ela que atendia. Até no último assalto, tinha sido ela a interlocutora dos criminosos!

- SIM, SOU EU MESMO!! POR QUÊ?

- Puxa, é mesmo? Tratando mal seus clientes deste jeito, o senhor vai falir.

Neste momento, ambos notam uma senhora de uns 80 anos, muito pasma e acuada, observando a situação. Ela é uma antiga cliente e o homem, incapaz de resolver por si o problema da entrega e agora o circo armado, covardemente, a fisga para dentro da situação.

- Trato bem os cliente como Dona Amelia! Não é, Dona Amelia? Boa tarde, como vai a senhora? – pergunta ele com uma gentileza guardada como um ás na manga.

Dona Amelia está um tanto confusa e murmura qualquer coisa inaudível. O homem continua provando a ela que é muito gentil.

- Venha sentar-se aqui, Dona Amelia, que ela já está indo e eu vou lhe atender, - diz com doçura de aspartame. Dona Amelia caminha trêmula até a cadeira ao lado da escrivaninha e senta-se com o auxílio exagerado do homem. O triângulo está formado.

Carol não vê nem ameaça, nem possível aliança na frágil Dona Amelia e diz ao homem decidida.

- Vou depois que o senhor me pedir desculpas.

Em milésimos de segundo, o homem completa sua transformação em animal raivoso e avança para Carol:

- EEEEU TE PEDIR DESCULPAS?!!! NUNCA QUE EU VOU TE PEDIR DESCULPAS!!!

Perdigotos resvalam em seu cabelo, mas Carol não recua nem um passo sequer:

- Então, eu não vou embora.

Dona Amelia timidamente anuncia:

- Eu vou embora e volto outra hora...

- De jeito nenhum, Dona Amelia, eu vou atendê-la agora mesmo. Ela se quiser que fique aí. – e, dizendo isto, senta-se para conversar com Dona Amelia. – A senhora veio saber sobre o sofá-cama, não é?

Carol se admira com a agilidade transformacional do homem e resolve fazer uma experiência. É certo que sua motivação não é a mera curiosidade científica: jamais admitiria ser ignorada no meio de um conflito. Então, ela pega o folder que havia depositado sobre a mesa e o rasga ao meio bem na cara do homem, que se levanta agora um predador raivoso e ferido e, arrancando-o das mãos dela, está prestes a agredi-la fisicamente quando vislumbra a expressão perplexa de Dona Amelia. Sua violência parcamente contida emerge em um rosnado bestial entre as presas:

- VOCÊ ESTÁ ME PROVOCAAAANDO!!! – e, pedindo auxílio, vira-se choroso para Dona Amelia – A senhora está vendo como ela está me provocando?

A velhinha com os olhos desbotados e a voz sumida diz:

- Estou vendo. Por que você está provocando ele?

Carol não se apieda da coitada, afinal, que casa de loucos era aquela em que se destratava brutalmente uma pessoa que veio comprar um colchão?

- Porque por nada ele está gritando comigo, uma cliente que veio comprar um colchão, e no mínimo, me deve desculpas por isso.

Recuperando um pouco do controle o homem grita:

- VOCÊ VEIO AQUI FAZER ESCANDALO POR QUÊ?!!!

Carol começa a achar a situação, de tão absurda, um tanto cômica e devolve a pergunta com a maior tranquilidade:

- Eu vim só comprar um colchão. Me diga, quem é que está aos berros aqui?

O homem perde novamente o controle:

- EU VOU CHAMAR A POLÍCIA! – e pega o telefone.

Carol não se intimida:

- Chame mesmo que isto já virou caso de polícia. Assim eu faço um B.O. e as coisas ficam esclarecidas.

Mesmo em meio ao seu frenesi neurológico o homem percebe que chamar a polícia foi uma péssima idéia. (Talvez ele tivesse antecedentes criminais.) Ele está prestes a desabar quando Dona Amelia percebe seu estado e zanga-se com Carol:

- Olha o que você está fazendo com ele... Vá embora! – ela tenta dizer com voz de comando.

Carol não tem mesmo por que se condoer com a aliada do homem e responde-lhe como se estivesse citando uma regra óbvia:

- Vou embora assim que ele me pedir desculpas.

Dona Amelia também está abalada e fica muito pálida. O homem corre ao depósito para pegar-lhe um copo d’água e fala com uma meiguice inimaginável, - Fique calma, Dona Amelia, ela já vai. – E virando-se para Carol pronuncia colericamente:

- ELA ESTÁ PASSANDO MAL POR SUA CAUSA!! VÁ EMBORA!!!

- Vá embora... – geme dona Amelia.

Carol diz a ambos com a mesma placidez de sempre:

- Vou embora depois das desculpas.

- Pare de provocar – exige e, virando-se para o homem, - Ela é descompensada, - conclui abatida, tentando consolá-lo.

Carol agora está intrigada com a complacência de Dona Amelia para com aquele homem e lhe pergunta:

- A senhora acha que isto está certo? Uma pessoa entra para perguntar o preço de um colchão e este homem começa a destratá-la? Eu não estou acostumada com que gritem comigo. Não aceito este tratamento!

- Mas eu o conheço há 30 anos! Ele é um bom homem...

- Obrigado, Dona Amelia! – diz ele comovido.

- Que sorte a minha! Eu o conheço a cinco minutos e só vi coisa ruim! – completa Carol já cansada da história dos comparsas.

Sempre gritando, mesmo que não mais com a mesma energia, o homem capitula lutando contra seu instinto de animal ferido:

- É DESCULPAS QUE VOCÊ QUER PARA IR EMBORA? É, É SÓ ISSO?!

- Sim, só isso, - diz Carol resoluta.

O homem respira fundo e senta-se. Põe uma máscara furtada da simpatia e sorri falsamente para Carol. Cínico é também o tom de sua voz, mas por fim ele diz com o esforço de quem engole um pequi inteiro:

- Me desculpe, meu amor.

Sem sorrir, mas sempre lhe fitando os olhos, Carol diz triunfante:

- Está desculpado! – e vira-se para ir embora pensando aliviada que a história poderia ter se alongado mais, quando a senhorinha repete para ser ouvida, - Ela é dessas pessoas descompensadas...

Carol está definitivamente cheia de tanta estupidez e diz com a certeza de um mandamento sagrado:

- Não senhora, sou uma pessoa que exige ser tratada com dignidade. Se a senhora não sabe o que isto quer dizer, eu sinto muito – e, por fim, saiu da loja.

No caminho para casa, Carol, que estava feliz por ter feito o homem pedir desculpas, pensou sobre todas as razões que poderia haver para ele ter agido daquela forma. Mas, para ela, nenhuma tragédia pessoal ou profissional justificava a agressão, a teimosia, a total falta de controle de que havia sido objeto. Talvez o mundo fosse mesmo um lugar para ser subvertido em caos, aos tropeços, e ela era apenas um degrau mais alto.

Naquela noite, Carol foi ao seu restaurante preferido com seu namorado, que acabara de chegar de viagem, e juntos adormeceram abraçados no sofá, um lugar onde a desordem do mundo e a loucura das pessoas não tinha espaço nenhum.

Conto de Chris Ritchie